Um Expresso na História

Vasco 0x0 River Plate (Campeonato Sul-Americano de Campeões 1948)

Compilado de artigos publicados em diversas edições de Placar e um artigo de Geraldo Romualdo da Silva no Jornal dos Sports de 27/9/1974.

No dia 14 de março de 1948, o torcedor vascaíno pôde dizer: no futebol brasileiro, não há nada que se compare ao Vasco. Nem time de clube nem time de Seleção. Porque neste dia o Vasco está realizando um feito inédito: o incrível Expresso da Vitória traz de Santiago do Chile o primeiro título internacional conquistado pelo futebol brasileiro no exterior. O Vasco torna-se campeão dos campeões sul-americanos. E isso seria pouco, se o principal adversário não fosse o River Plate - o time argentino que o mundo chamava de La Máquina. Um time que era considerado imbatível, porque tinha um ataque de gênios - e o gênio máximo se chamava Alfredo Di Stéfano. Foi esse o ataque que o Vasco parou - na classe, na raça, na catimba. Nessa final imortal, só houve uma falha - a do juiz, que, entre outras coisas, anulou o gol de Chico.

O clube que nascera discriminado, porque sua torcida era formada por imigrantes portugueses, e que fora perseguido, porque admitia sem preconceito racial qualquer tipo de trabalhador em suas equipes e seu quadro social, dava mais uma lição ao futebol brasileiro. O Expresso da Vitória mostrava que não precisávamos escolher campo para vencer. Bastava ter alguns craques no time. E raça no coração.

O Vasco, o Expresso da Vitória, é o campeão carioca de 1947. Venceu 17 jogos e empatou apenas três; fez 68 gols e sofreu 21; o poderio de seu ataque é impressionante: contra o Canto do Rio, chegou aos 14 a 1. O Botafogo, vice-campeão de 47, acabou sete pontos atrás do Vasco.

O River também tem um timaço, tanto assim que é chamado de La Máquina. É o campeão argentino de 1947, seis pontos a frente do Boca Juniors, o vice-campeão. Marcou 90 gols, igualando o recorde obtido pelo San Lorenzo no ano anterior. Sua grande estrela é um jovem de 21 anos, Alfredo Stéfano di Stéfano. Dono de técnica perfeita, ele é também um goleador: foi o artilheiro de 1947, com 27 gols. Di Stéfano já é conhecido como La Saeta Rubia (A Flecha Loura), tal a sua velocidade.

O Primeiro Campeonato Sul-Americano de Campeões foi promovido pelo Colo-Colo e contava com a participação de sete clubes, campeões de seus respectivos países. A fórmula era simples: Todos contra todos, em turno único, pontos corridos. O Vasco chega a sua última partida no torneio com apenas um ponto perdido, consequência de um empate com o time da casa, o Colo-Colo. O River, surpreendentemente, perdeu para o Nacional de Montevidéu por 3 a 0. Só a vitória lhe manterá as esperanças. Depois, ainda tem uma partida a cumprir, contra o Colo-Colo.

Os dois times estão dispostos em campo. De um lado, o Vasco (JPEG, 41k), de camisa preta com faixa diagonal branca e calções brancos, com Barbosa; Augusto e Wilson; Eli, Danilo e Jorge; Djalma, Maneca, Friaça, Ismael e Chico; do outro, o River, de camisa branca com faixa diagonal vermelha e calções negros, com Grisetti; Vaghi e Rodríguez; Iácono, Rossi e Ramos; Reys, Moreno, Di Stéfano, Labruna e Lostau.

O grande desfalque do Vasco é o artilheiro e ídolo Ademir, que fraturara o pé direito na vitória por 4 a 1 sobre o Nacional. Além dele, não joga o zagueiro Rafanelli, até então titular absoluto, a quem o técnico Flávio Costa resolveu barrar: "Ele era um excelente central. Mas, na véspera, senti que ele estava nervoso. Era de Santa Fé, província do interior, e nunca tivera cartaz na Argentina. Sentia o peso de enfrentar seus famosos patrícios. Preferi escalar Wilson, que nem sabia o nome dos argentinos".

São 18h30m no Rio de Janeiro, e, em Santiago do Chile, vai começar a decisão. Dizer que o Rio parou seria um exagero. Mas o carioca, vascaíno ou não, está de ouvido colado ao rádio, tentando ouvir a voz do "speaker" Oduvaldo Cozzi entre a sinfonia de chiados. Cozzi estava então no auge de sua carreira. Seguir suas narrativas era como "assistir" ouvindo tudo nos menores e mais exaltados momentos de uma partida.

O juiz uruguaio Nobel Valentini apita, e Friaça rola a bola para Maneca. Jogo equilibrado nos dez primeiros minutos, os dois times se estudando. Numa disputa de bola com Djalma, Ramos se machuca - Ferrari entra. O jogo esquenta. Os argentinos passam a catimbar e a reclamar de cada marcação de Valentini.

Wilson marca Di Stéfano e leva vantagem, disputando cada bola com raça e categoria. Sentindo-se seguro na defesa, o Vasco parte decididamente para o ataque e Grisetti faz duas defesas difíceis em um chute forte de Chico e uma bola colocada por Danilo. Valentini interrompe o jogo e pede aos carabineiros chilenos que retirem os fotógrafos de trás do gol argentino, pois os flashes prejudicam a visão de Grisetti.

O ponta-esquerda Chico é uma fera. É ele quem obriga Grisetti a mais impressionante defesa até o instante, e também quem causa o primeiro tumulto da partida, ao entrar de sola em Iácono. Valentini chama-lhe a atenção.

Agora é a vez do River. Labruna perde gol certo ao chutar por cima do travessão. O River explora inteligentemente os contra-ataques, a criatividade e velocidade de Di Stéfano e os dribles e as arrancadas de Lostau. Mas Barbosa está atento e faz defesas de classe.

O clima era totalmente adverso. A torcida estava do lado do River. E juiz e bandeirinhas cometiam uma arbitragem escandalosamente facciosa. Valentini apita um pênalti contra o Vasco. Barbosa conta o seu milagre:

-- Não foi pênalti, não. Mas o que fazer contra aquele juiz? Me conscientizei de que tinha de agarrar. Então fiquei lá debaixo dos paus; o Labruna, estrela do River, na marca de cal. Ele chutou rasteiro, e eu fui lá buscar a menina.

Antes do primeiro tempo terminar, Grisetti ainda fará duas grandes defesas, em chutes de Friaça, um deles em cobrança de falta.

O River volta para o segundo tempo com Muñoz em lugar de Reys e passa a jogar com dois ponteiros abertos. Falta de Eli em Labruna. Moreno bate de efeito, a bola raspa o travessão com Barbosa batido. Num contra-ataque rápido, Maneca enfia bola limpa para Friaça que, na hora do chute, fura inexplicavelmente, fazendo sentir-se a ausência de Ademir.

Comoção no banco do Vasco: Wilson, que até então marcara Di Stéfano com perfeição, machuca-se no tornozelo e não pode continuar. Rafanelli entra em seu lugar.

Barbosa, com uma reposição perfeita, dá a bola para Friaça, que de primeira passa a Chico: Gol do Vasco, aos 28 minutos. Os argentinos cercam Valentini, que afinal anula o gol, inventando o impedimento de Chico. Os vascaínos peitam a Valentini e Flávio Costa entra em campo, mas os argentinos mandam no juiz.

Nos últimos 15 minutos, a categoria cede lugar a violência. Rossi pega Maneca para quebrar - Valentini finge não ver. Chico, gaúcho que não leva desaforo para casa, na primeira que disputa com Rossi vai à forra, sem tomar conhecimento do tamanhão do argentino - novamente Valentini o chama a atenção. A última oportunidade ainda é do Vasco. Ismael passa por quatro, mas Grisetti faz boa defesa. Vão ser necessários os cinco minutos de prorrogação previstos no regulamento.

Antes mesmo que esta comece, explode uma briga entre Chico e Mendez, que substituira Iácono, e ambos são expulsos. Maneca, contundido, e Friaça, cansado, dão lugar a Lelé e Dimas. Nenhum dos dois times pensam em jogar na defesa: o River, por precisar da vitória; o Vasco, por sentir que pode vencer. Em apenas 5 minutos, os torcedores presenciam incríveis defesas de Grisetti e Barbosa.

A última chance é de Lelé, de pé direito, forte. A bola sai como um foguete, mas Grisetti desvia com a ponta dos dedos. Termina a prorrogação. O Vasco é campeão dos campeões sul-americanos.

Ao som do hino nacional brasileiro, o presidente chileno Gonzalez Videla entrega o caneco aos vascaínos, sob os aplausos do público que lota o Estádio Nacional de Santiago. Os chilenos, que haviam de início torcido para o River, reconheceram a superioridade do Expresso da Vitória.

O Campeonato Sul-Americano de Campeões não passou da sua primeira edição. O jornalista Geraldo Romualdo da Silva assim descreveu o que chamou de "a culpa inocente do Vasco":

A garotada de hoje não imagina o sucesso que o Vasco fez no Chile, em 48. O Campeonato dos Campeões foi uma ideia de sentido tão formidável, bolada em circunstâncias tão vantajosas para os clubes dele participantes e de resultados financeiros imediatos, igualmente tão pródigos para todos, que o normal, e até o óbvio, seria esperar-se do sucesso que produziu uma vida mais longa. Não foi esse o caso. Motivos que transparentemente não se justificam, mas que a razão política explica, determinando o sufocamento do torneio, matando-o no seu nascimento. A manobra foi a seguinte: destroçados na vaidade milenar pela inesperada derrota que o Vasco impôs ao River Plate, em Santiago, os argentinos, que tudo fizeram no começo para estimular a iniciativa chilena, passaram ostensivamente a sabotá-la. "Simplesmente - afirmaram mais tarde os jornais de Buenos Aires - jamais nos meteremos em competições preparadas para determinados tipos de vencedores".

Isso dito não se meteram mesmo. Resultando daí que, ainda todo-poderosos do futebol sul-americano, terminaram por esvaziar o Campeonato. Sepultando-o, impunemente, após sua primeira e útil experiência.

No fundo da coisa, o que levou os argentinos a se ressentirem tanto foi a derrota que o time do Vasco impôs ao orgulhoso River, base de sua Seleção Nacional, um conjunto milionário, arrogante, formado por jogadores ténicamente formidáveis, mas incapazes de entender a humildade como base moral de qualquer esporte. Aquele Vasco não podia surpreendê-los assim. Mas surpreendeu. Aquele Vasco não podia vencê-los assim, sem apelar para a violência e sem depender do apoio do juiz. Mas venceu.