Na última vez em que o Brasil chegou ao 3º jogo da Copa ainda sob risco, em 1978, Dinamite fez o gol da classificação; veja vídeo

Quinta-feira, 19/06/2014 - 17:07
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Num país que vai da euforia à depressão em 90 minutos, as duas primeiras rodadas trouxeram uma inversão de expectativas. No lugar do anunciado caos na organização, a competição tem encantado e funcionado bem mais do que o time da casa, visto anteriormente como a construção mais sólida em meio ao atraso geral da nação. Depois de sofrer ao longo do empate sem gols com México, o torcedor terá esperar até a última hora para celebrar o alívio. Ao contrário do que ocorreu em todas as Copas desde 1982, quando o Brasil encaminhou sua classificação com vitórias nos dois primeiros jogos, dessa vez a última rodada da fase de classificação não servirá apenas para cumprir tabela ou fazer experiências.

- Serão duas decisões na última rodada do nosso grupo. É bom porque a gente já vai entrando no clima dos mata-matas - disse o capitão Thiago Silva, já prevendo as emoções que estão por vir na rodada em que o Brasil enfrenta Camarões em Brasília e o México joga com a Croácia em Recife - O jogo deles ainda será mais complicado. Estamos prontos para as dificuldades que a Copa oferece, mostramos isso contra o México.

Na disputa entre sul-americanos e europeus pela hegemonia do futebol mundial, o Brasil é o único dos campeões do mundo a triunfar no continente adversário mas não tem se valido da vantagem de jogar em seus domínios. Na última Copa disputada na América do Sul, em 1978, na Argentina, a seleção sofreu até a última rodada para se classificar num grupo com três europeus. Depois de empates com Suécia e Espanha, uma mudança geral no time, imposta pelo presidente da antiga CBD, o almirante Heleno Nunes, transformou o medo numa explosão de alegria pelo gol de Roberto Dinamite na vitória sobre a Áustria.

Desde então, o Brasil cumpriu, em todas as primeiras fases das oito Copas que disputou, uma trajetória em que a tensão da estreia vai sendo reduzida progressivamente até que o terceiro jogo já tenha clima de amistoso. Sem precisar somar pontos ou usar sua força máxima, foi assim que a seleção empatou com a Suécia em 1994, perdeu da Noruega no Mundial seguinte e voltou a empatar, dessa vez com Portugal, na última edição da Copa.

- Quatro pontos em dois jogos está bom - disse o goleiro Júlio César ao comparar a campanha atual com a anterior, da qual também fez parte. - Na última Copa nos classificamos com os mesmos sete pontos que podemos fazer agora. A diferença é que agora o empate veio no segundo jogo.

CAMARÕES, MELHOR COM OU SEM PRESSÃO?

A frieza na análise dos números não é capaz de dar conta das emoções que estão por vir. Mesmo que jamais tenha ido longe nas Copas do Mundo, a zebra africana já cruzou duas vezes o caminho do Brasil em Olímpíadas, com derrota na semifinal para a Nigéria, em 1996, e eliminação nas quartas de final diante de Camarões nos Jogos seguintes

- Os times africanos são sempre imprevisíveis. A gente não sabe se eles jogam melhor com ou sem responsabilidade - disse David Luiz.

O Brasil também suscita dúvidas. Quando se esperava uma atuação mais convincente depois da vitória na estreia, o jogo com o México revelou um descompasso não apenas entre os setores do time de Felipão. Em meio ao silêncio da torcida brasileira, sufocada pelos mexicanos no Castelão, chamou a atenção do coro dos jogadores, a exaltar a evolução do time.

- A mim me encanta a maneira com que estamos jogando, porque vejo um time correndo, consciente de que está enfrentando grandes adversários. Me encanta porque é um time humilde, que quer crescer - defendeu David Luiz.

Entre visões tão distantes está o ponto de equilíbrio que a seleção e as expectativas para a Copa ainda procuram. Como a compreensão do Brasil sobre si mesmo é capaz de ir do ufanismo à rejeição em 90 minutos, ainda há muito tempo para virar o jogo. Diante da amplitude do humor nacional, que faz do fracasso anunciado de hoje a redenção de amanhã, o mais difícíl é fazer um país melhor todo dia. Já que a unidade é uma meta impossível, resta esperar que as avaliações sobre a seleção e a organização da Copa ao menos se encontrem na celebração do dia 13 de julho.



Fonte: O Globo Online (texto), Youtube (vídeo)