Fellipe Bastos: 'Sem confiança, um jogador não passa de um cone.'

Terça-feira, 14/01/2014 - 17:10
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A palavra central no discurso de boa parte dos jogadores de futebol para explicar uma boa ou má fase é confiança. Polivalente meia, que joga em até três posições do meio de campo, Fellipe Bastos talvez personifique melhor o sentido desse discurso boleiro. No Vasco, debaixo de vaias, errava mais do que de costume e era perseguido pela torcida. Ao ponto que o ex-técnico Paulo Autuori, ao chegar em São Januário, pediu uma trégua aos vascaínos para utilizar o jogador. Mas o melhor caminho terminou sendo uma saída para respirar novos ares. Para ele e para a Ponte Preta, que chegou à final da Sul-Americana, perdeu o título, mas viu um outro Fellipe Bastos.

Meia mais avançado na base, onde frequentava seleções de categorias inferiores, o Bastos do time de Campinas atacava sem parar, ia para cima dos adversários e se tornou uma peça fundamental na boa campanha na competição mata-mata. Foram quatro gols em pouco mais de três meses. O sucesso longe de São Januário chamou ainda mais a atenção de Adilson Batista, que já observara o meia de 23 anos antes de ter a chance de treiná-lo.

- Havia enfrentado o Fellipe quando treinava o Figueirense, antes pelo Atlético-PR. Eu sempre gostei desse jogador, sempre vi potencial. Eu o acompanhei também na Ponte. Ele é nosso e vai dar sua contribuição aqui - disse o técnico do Vasco, na primeira coletiva de imprensa do ano.

O incentivo de Adilson é um alívio para Fellipe Bastos. O jogador não avalia que tenha sentido receio de errar nos piores momentos que viveu em São Januário, mas reconhece que ter um clima favorável ajuda o jogador a ter mais...confiança.

- Nunca joguei com medo. Mesmo sendo criticado, às vezes injustamente, nunca deixei de tentar. Mas acho que a confiança do treinador, da diretoria, deixa tudo totalmente diferente. Por exemplo, algumas coisas que fazia dentro de campo com Cristóvão (Borges, ex-treinador do Vasco) saíam naturalmente. Com outros, isso não acontecia, porque não tinha confiança deles, era cobrado pelo torcedor e isso refletia. Não que Cristóvão não cobrasse, mas ele me passava confiança fazer as coisas. Foi o que o Jorginho, meu técnico na Ponte Preta, fez e o que o Adilson está fazendo para mim - diz Bastos, antes de encaixar uma frase de efeito: - É como dizem: o homem com confiança vai até a lua. Sem confiança, um jogador não passa de um cone.

O repertório mais conhecido de Bastos, as faltas de longe e os chutes à meia distância, continuam em dia. Nos primeiros treinos em Pinheiral, ele foi titular e fez gol, sempre arriscando muito. Mas o jogador promete colocar em prática o que fazia na base e acabou deixando de lado nos tempos mais complicados em São Januário.

- Na Ponte, comecei a arriscar falta de perto, o que que aqui no Vasco eu não fazia. Foi assim que fiz gol contra o Deportivo Pasto. Outra coisa, o drible. Era uma coisa que fazia muito e aqui (no Vasco) não vinha fazendo. Nem é só por não ter confiança, mas por jogar em função diferente, por preocupação de não perder a bola na defesa e expor a equipe. Pela posição, mais recuada, que jogava. Por isso foi muito importante minha ida para a Ponte. Reabriu um leque de jogadas que eu já tinha - afirma o jogador, que se vê praticamente com a mesma função que Jorginho o deixou na Ponte com Adilson no Vasco.

Críticas injustas

Em entrevista para uma rádio carioca recentemente, Bastos se disse desrespeitado pelo Vasco, pela forma como acabou saindo para a Ponte Preta. O jogador retificou a declaração, explicando que a palavra mais correta seria "falta de paciência que não o Vasco, mas as pessoas que estavam no Vasco" não tiveram com ele. É no amor pelos dois filhos - Giovanna, de dois anos, e Matheus, de cinco meses - que o meia tira forças para vencer de uma vez por todas em São Januário. Famoso também por inventar dancinhas e comandar a brincadeira nos gols do Vasco, Bastos praticamente aposentou essa função informal de coreógrafo das equipes por onde passa.

- Acho que isso me expunha muito e às vezes se é mal interpretado. Estou com dois filhos, mais maduro, não posso brincar muito, não posso perder mais tempo com essas coisas de garoto, que queria dançar, que queria demonstrar nos gols a felicidade. Não que não vá fazer, se der na cabeça de fazer a dancinha, faço. Mas nada programado como fazia antes, com Alecsandro, Diego Souza, Dedé, quando combinávamos na concentração. Não vou perder tempo pensando nisso - garante ele.

Com a cabeça no lugar, Bastos quer minimizar qualquer animosidade com o torcedor vascaíno. Quer recuperar a confiança e carregar junto com a potência do seu chute aqueles desconfiados - seja das arquibancadas, seja da diretoria, seja da comissão técnica ou da imprensa.

- Tinha jogo que não era brilhante, mas também não era o pior em campo e eu era criticado como se fosse pela imprensa, que forma opinião. Muito torcedor não vê o jogo e vai no que a imprensa. Quando jogo mal sou o primeiro a reconhecer. Mas havia partidas que ia na média e era muito cobrado do mesmo jeito. Na Ponte, saí desse foco e aprendi mais a conviver com isso, com outra esfera, outro ambiente.

Fonte: GloboEsporte.com