Com clubes em crise financeira, Valentim e técnicos de Botafogo e Fluminense moldam os times aos seus estilos
Domingo, 13/01/2019 - 13:06
Reforçar o elenco. É uma frase simples — e repetida à exaustão — que aguça a imaginação de clubes, treinadores e torcedores, só trazidos de volta à realidade quando batem nos limites da conta bancária. Enquanto o Flamengo buscou estrelas que guiassem o barco do veterano Abel Braga, Botafogo, Fluminense e Vasco depositam suas (poucas) fichas na filosofia de um trio de jovens treinadores. Zé Ricardo, Fernando Diniz e Alberto Valentim tentam desvendar a mesma equação: montar equipes que se adequem às suas ousadas propostas de jogo em um mundo no qual tempo e recursos parecem mais finitos para eles do que para outros.

Diniz, de 44 anos, já levou o modesto Audax de Osasco a um vice-campeonato paulista. Foi capaz de enfrentar gigantes endinheirados de igual para igual graças à obsessão pela posse de bola, mobilidade das linhas, construção paciente de ataques desde o goleiro — elementos do chamado "jogo apoiado" que, de certo modo, também marcaram os surgimentos de Zé Ricardo, de 47 anos, e Valentim, 43, na elite do futebol brasileiro. É quase consenso, porém, que Diniz terá dificuldades para fazer o mesmo no Fluminense.

— Alguns jogadores que saíram, como Sornoza e Richard, têm mais aptidão do que os reforços para esse estilo do Diniz — analisa Leonardo Miranda, do blog "Painel Tático" do "Globoesporte.com". — O elenco do Fluminense, hoje, tem mais a característica de chegar rápido no ataque do que de tocar a bola.

Titulares como Julio César, Gum, Ayrton Lucas e Jadson também deixaram o tricolor. As reposições têm perfil mais "direto", isto é, menos paciência na subida ao ataque, casos do volante Bruno Silva, do meia Mateus Gonçalves e do atacante Yony González. Caio Henrique, de quem se espera mais construção de jogo, ainda não assinou.

— Dos três, creio que Diniz é o que terá mais trabalho. Nos casos de Valentim e Zé Ricardo, a situação dos clubes ano passado não permitiu que impusessem seu estilo. Mas essa continuidade do trabalho e as contratações em parceria com a diretoria são muito benéficas — opina o ex-jogador Grafite, comentarista do "Sportv".



O Botafogo, em vez de resistir às inevitáveis saídas de Igor Rabello e Rodrigo Lindoso, usou o momento para trocá-los pelo zagueiro Gabriel, já elogiado por Tite, e pelo volante Alex Santana, que costuma se lançar ao ataque. Grafite, Miranda e o comentarista Rafael Oliveira, da "ESPN", veem um reforço ainda mais importante dentro do clube: a volta do meia João Paulo, que sofreu grave lesão e perdeu quase toda a temporada passada. A tendência é que João Paulo, o último remanescente do meio-campo da Libertadores de 2017 — Lindoso foi para o Internacional, enquanto Bruno Silva e Airton estão no Flu —, seja o articulador que Zé Ricardo buscava para montar um time menos reativo.

Atrás do 'toque de mágica'

João Paulo pode atuar recuado, como segundo volante, caso o chileno Leo Valencia jogue na função de camisa 10. Pode também ser o meia de aproximação com o trio de ataque, que deve ter Luiz Fernando, Leandro Carvalho e Pimpão como opções de velocidade pelos lados.

Dos três rivais, o Vasco é quem tende a estruturar seu time em torno de um meia central: Bruno César, de 30 anos, o reforço que despertou maior expectativa entre os oito já apresentados em São Januário. Oliveira vê coerência na chegada de laterais ofensivos e na busca por jogadores velozes, como o meia Yan Sasse, contraponto a um miolo mais lento.

— O trabalho do Valentim é pé no chão — pondera o comentarista da "ESPN". — Não seguiu a tendência que mostrou no Palmeiras, de adiantar muito as linhas, marcar lá em cima. Ainda não vejo time para isso. Uma zaga com Castán e Werley não tem velocidade para jogar perto do meio-campo.

Até a estreia no Carioca, em uma semana, os três treinadores terão pouco tempo para marcar seu estilo. Nem por isso a expectativa diminui: Miranda, do "Painel Tático", usa para Diniz uma frase que se aplica ao trio:

— A diretoria confia que ele dê um toque de mágica.

Fonte: O Globo Online