Nutricionista do Vasco, Melina Frota comenta o papel das mulheres no futebol profissional

Segunda-feira, 06/02/2017 - 06:15
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A missão era encontrar as mulheres que trabalham diretamente com o futebol profissional no Campeonato Carioca de 2017. Teve clube que informou que só tinha presença feminina na área administrativa, como a de Recursos Humanos, na cozinha, limpeza e lavanderia. Outro time, que conta com uma nutricionista, questionou a reportagem o que era esperado além disso. Também aconteceu de uma equipe afirmar que só tinha secretária.

Dos dez clubes principais, dos Grupos B e C (sem contar o acesso), cinco empregam mulheres nas comissões técnicas ou diretoria. Não há mulheres em áreas como fisioterapia, fisiologia nem mesmo nas estatísticas. Atualmente, nenhuma ocupa o cargo de presidente. No Fluminense, no entanto, aconteceu o inesperado. Além de uma nutricionista, há cerca de 20 anos nas Laranjeiras, uma mulher aparece em posição de comando: Roberta Fernandes.

A EXCEÇÃO NO CLUBE DO BOLINHA

A mesa de trabalho de Roberta é organizada, sem muitos objetos. E por isso, salta aos olhos o mouse de computador cor de rosa, uma bolinha de borracha pink, usada para aliviar o estresse, e cadernos de capa dura com estampa de florzinha. Ao receber O GLOBO, numa quinta-feira, Roberta, de 38 anos, usava saia e camisa pretas ("Para emagrecer na foto"), saltos altos e cabelos (loiros) escovados. Sem cerimônia ou receio de mostrar-se feminina, confessou que havia marcado o encontro naquele dia porque poderia ir antes ao salão.

Ela é exceção no clube do bolinha: diretora executiva geral e diretora jurídica do Fluminense, ocupa cargo de destaque em um grande clube do país, fugindo do perfil feminino encontrado nos clubes do Carioca. Quando há mulheres em seus quadros, são nutricionistas ou psicólogas. E só.

- Será que temos tantas profissionais no mercado com interesse em trabalhar num clube de futebol? Não vejo nenhuma buscar vaga nesses setores como fisiologia, estatística, entre outros. E não acho que o futebol seja mais para homens. Isso já foi. Hoje vejo profissionais independentemente do sexo - afirma a CEO do Fluminense, que garante que não há mulheres procurando emprego no setor. - Pode ser falta de interesse mas também por causa da fama de clube do bolinha e de mau pagador, algo que tem melhorado recentemente. Temos mulheres em cargos importantes, porém em áreas administrativas. No futebol, é mais difícil.

Procurar uma chance no futebol foi o que ela fez há cerca de 11 anos. Recém-formada em Direito, bateu à porta do departamento jurídico clube, com CV embaixo do braço e um dossiê sobre todos os processos do time na área trabalhista daquela época. E, segundo ela, no capricho feminino: encadernado, com o escudo do clube, e atualizado em relação aos valores. Ganhou a vaga de advogada assistente, com salário de estagiária.

- Vi uma matéria sobre as dívidas dos clubes de futebol, os que eram mais acionados na Justiça do Trabalho, e aquilo me chamou a atenção. Pensei em como deveria ser a dinâmica de um departamento jurídico de um clube de futebol e comecei a pesquisar os processos do Fluminense por ser meu time.

ESTUDO E PRECONCEITO

Roberta, que guarda até hoje a avaliação que fez à época, teve receio de ser questionada sobre o jogo, as regras. Assim, ficou madrugada inteira vendo lances da TV.

- E se mostrassem jogadas para eu falar se estava impedido? Tinha de entender o básico - conta, aos risos, a CEO, que diz ter sofrido preconceito até se firmar no cargo. - Justamente por ser mulher, nova, e entrar em um ambiente muito fechado, masculino e político. Obviamente gerou desconforto. Passei por várias situações desrespeitosas, recusei presentes, convites... Ficava chateada. O assédio era interno, inclusive de atletas. Pensei em desistir várias vezes. Hoje, isso mudou. Não tenho mais problemas.

Roberta é a única mulher atualmente em um cargo de direção executiva em um clube de futebol no Brasil. E por isso, faz reuniões, internas ou externas, só com homens. Garante que já se acostumou a ouvir - e, às vezes preferir, - palavrões. Ela também mudou.

- Aprendi muito com os homens, a deixar o emocional de lado quando necessário. Sou mais dura e sofro menos. O homem é mais objetivo - avalia a chefona. - Não surgi do nada. Construí uma história no Fluminense e isso facilitou o relacionamento com os executivos dos outros clubes.

NUTRIÇÃO E PSICOLOGIA, AS ÁREAS MAIS FEMININAS

Nutrição e psicologia eram considerados cursos "essencialmente de menina", assim como já se pregou que engenharia era mais a cara "dos meninos". No futebol profissional (masculino), as profissões preenchidas por mulheres são justamente essas, as mais tradicionais.

Além do Fluminense, que conta com a CEO Roberta Fernandes e uma nutricionista, há cerca de 20 anos, o Flamengo tem a dobradinha psicóloga e nutricionista, assim como o Vasco. O Boavista tem só nutricionista. E o Resende, bingo! Mais uma nutricionista.

Botafogo, Madureira, Volta Redonda, Bangu e Macaé não contam com mulheres nas suas folhas de pagamento.

Elizabeth Vilhena, de 55 anos, nutricionista do Boavista e que trabalhou no Botafogo por 12 anos, acredita que o futebol ainda é esporte para homens.

Conta que deveria entrar no vestiário antes e no intervalo dos jogos para ajudar os atletas com a suplementação. Mas que não o faz e repassa a um fisiologista ou preparador físico suas observações. Fica na porta à disposição. Ao final do jogo, espera os jogadores na antessala para orientá-los com o lanche e novamente com o reforço dos suplementos.

- Não me importo em passar as informações a um colega. Somos uma equipe. E como os jogadores ficam à vontade, não faz sentido que eu entre. Jogam a roupa no chão e o roupeiro vai catando. O momento do intervalo é de ajustes entre técnico e jogadores e tem de ser rápido mesmo - analisa Elizabeth. - Essa é uma barreira óbvia. Vestiário de mulher, acredito, deve ser mais tranquilo, com mais privacidade. Se não, o Zé Roberto e sua comissão técnica, por exemplo, não conseguiriam trabalhar com a seleção feminina de vôlei.

Elizabeth conta que era nutricionista do time de basquete do Botafogo e o então presidente Bebeto de Freitas lhe pediu para migrar para o futebol.

- Fiquei apavorada. Não tinha conhecimento do futebol como tenho hoje. Quando era pequena, não assistia jogo, nunca fui ao estádio com o meu pai. Hoje é diferente assim como o reconhecimento do trabalho de nutrição. Antes os jogadores pegavam os suplementos, tomavam e nem sabiam o que era. Hoje, me vejo em rodinha com quatro, cinco atletas explicando bioquímica - comenta Elizaberth, que aprendeu a levar a vida mais leve desde então. - Eles vivem o momento e isso me faz muito bem. Parece que tenho 20 anos, sou mais brincalhona.

Para a também nutricionista Eleonora Celano, de 42 anos, que trabalha com o time principal do Resende, a tendência é ter menos mulheres no futebol. Lembra quando cursou Nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e os homens eram imensa minoria. Acredita que isso está mudando:

- Mulher se interessava mais pela saúde, estética e alimentação. Agora, a nutrição esportiva é um assunto que conquistou os homens também. E o perfil do profissional mudou - comenta Eleonora, que não viaja com os jogadores mas fica no pé de todos. - Diferentemente dos grandes times, fico mais distante. Não viajo com o time mas uso o WhatApp com frequência. Fico em cima! Como Resende é uma cidade pequena, sei quando eles vão em pizzarias ou compram churros no calçadão do Centro.

Não se trata apenas impressão de Eleonora. Segundo a UFRJ, em 2007, 80 alunos passaram no vestibular para Nutrição, sendo 74 mulheres e seis homens. No mesmo ano, o total de alunos formados foi 52, sendo 51 mulheres e apenas um homem.

Em 2016, 90 alunos ingressaram no mesmo curso. Desse total, 76 são mulheres e 14, homens, mais que o dobro se comparado a 2007. E dos 67 formados em 2016 , 64 são mulheres e 4 homens, quatro vezes mais do que em 2007.

SELEÇÃO BRASILEIRA

Silvia Ferreira, de 53 anos, há 31 no Flamengo e desde 1991 no time profissional, concorda com a colega em relação ao futuro. Como a procura masculina pelo curso aumentou, esses profissionais podem ter preferência na escolha. Ela mesma divide tarefas com um nutricionista. Ele fica encarregado do desempenho dos jogadores em campo. E ela cuida exclusivamente do cardápio tanto no clube, quanto nos hoteis. Silvia, que atuou cerca de 13 anos na seleção brasileira, afirma que o futebol dá prestígio e paga bem. Mas que isso nunca foi seu objetivo.

- Essa área é como outra qualquer. O que importa é a confiança no profissional mas, sim, há mais homens especialistas em nutrição esportiva. Acho que depende da gente se colocar e fazer o trabalho bem feito. Eu amo o que faço. Hoje me veem como uma mãe talvez - diz Silvia, para quem os jogadores são muito educados e receptivos. - O fato de eu ser mulher faz com me tratem com mais cuidado. É doutora para cá, doutora para lá.

"Se colocar" é algo que a nutricionista do Vasco, Melina Frota, de 33 anos, sabe fazer muito bem. Ela explica que além da postura, prefere trabalhar com uniforme, que pode incluir calça jeans, mesmo no calor, camisa do time e tênis ou sapato fechado. Ela não usa bijuterias chamativas, muito menos saia.

- Para não destoar. Não estou ali para aparecer. Sou uma funcionária, um membro da comissão técnica igual a todo mundo. Da mesma forma que não aceito o preconceito por ser mulher, não quero privilégio.

Ela acredita que colhe os frutos plantados pelas colegas pioneiras que conquistaram o emprego pelo estômago. Há 3,5 anos no clube, ela, que começou como nutricionista substituta no futebol de base para cobrir uma licença maternidade, subiu ao profissional há dois. É a única na função. Ela vai para as concentrações e viaja com o time para competições e pré-temporada (o marido, no início, não gostou). Recentemente, em viagem aos Estados Unidos, foi abordada por aeromoças e funcionários do hotel que queriam saber como ela se sentia sendo a única mulher no grupo.

- Silvia e Elizabeth abriram as portas. No início, deveria ser mais difícil principalmente por causa das pessoas mais antigas, mais velhas, com outra cabeça. Hoje, vejo gente mais moderna no futebol. Não encontro problemas - afirma a nutricionista, que também é formada em Educação Física e sempre quis trabalhar com futebol.

Melina, que tem a psicóloga Maíra Ruas como parceira no clube, acredita que as mulheres não dominaram a área por falta de oportunidade. Afirma que são poucas as vagas.

- Não é todo mundo que consegue entrar. Talvez pensam que não tem oportunidade e se direcionam para outros lugares. Mas acredito que depende de cada gestor, em cada clube, dar preferência ou não aos homens - analisa Melina, que afirma que as mulheres deveriam entrar no futebol em outras funções e que é possível se adaptar. - Eu não entro no vestiário. Quando tenho de fazer alguma suplementação, entrego para qualquer um do time, inclusive ao treinador. Todos ajudam. Por isso me pergunto: por que não ter mulheres na fisioterapia, por exemplo? No hospital, médico examina, dá banho em qualquer paciente, homem, mulher, criança ou idoso. O jogador é um paciente como outro qualquer. O problema está na cabeça dos outros.

A APOSTA NA ARBITRAGEM

Os primeiros dez minutos servem para ela desfilar. Mostrar segurança. É quando os jogadores testam a arbitragem, ainda mais quando o apito está em poder de uma mulher. E se essa mulher é bonita e atlética, o desafio pode ser ainda maior. O frio na barriga, o desafiio, a zona de desconforto, são perseguidos pela única árbitra mulher, dentre os 34 habilitados para o Campeonato Carioca, por cinco anos, desde o primeiro curso.

Rejane Caetano, de 31 anos, é a aposta da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro. Além da estreia na Série A, ela, que passou pelas Série B e C, também é nova na lista da Fifa (porém para apitar jogos femininos). Rejane, há quatro anos no quadro da Confederação Brasileira de Futebol, afirma que está pronta e que fará a diferença.

- No início, os jogadores tem uma admiração direta. Depois, começam a nos testar. É aqui que tenho de mostrar que estou segura. Depois, a pressão é igual - comenta a árbitra, que tem discurso humilde. - Estou aqui para aprender e melhorar. Vou entrar em campo e dar o meu melhor sempre. Meu objetivo é mostrar que sou capaz.

Rejane, que atuou em 22 partidas ao longo de 2016 (Série D, sub-20 e jogos femininos) e alcançou, nos testes físicos da FERJ, os índices dos gêneros feminino e masculino, garante que nunca teve dificuldade na parte física. Explica que é atleta desde os 10 anos, quando se apaixonou pelo atletismo. Adolescente, se especializou em provas de meio fundo. Acredita que a parte física é o grande empecilho para as mulheres.

- A arbitragem me chamou a atenção justamente pela parte física. Eu tenho facilidade. Fiquei pela superação, vencer nesse meio masculino. Foi um desafio entrar e me manter. Acho que a maior dificuldade é a aceitação - afirma a árbitra, que também teve de se superar em relação às regras. - Foi um desafio maior, admito. Senti dificuldade no início. Mas estudei e continuo estudando. Tenho preparação específica aqui no Rio, com instrutores e posso consultá-los em qualquer situação. Estou sempre com o meu livro de regras e sou submetida a avaliações diretas que apontam o que precisamos melhorar.

A árbitra conta que não são poucas as vezes em que é surpreendida por perguntas sem pé nem cabeça. E que a desconfiança externa também lhe incomoda. O segredo, para ela, é levar na esportiva.

- Quando digo que sou árbitra, perguntam: Árbitra mulher? É um som duvidoso. E escuto frases como: Nossa, você é árbitra de futebol? Parece que posso ser de vôlei, futsal, mas quando falo que trabalho com futebol há surpresa. Mas você apita? (risos), perguntam. E tenho de enfatizar que sou árbitra central e não bandeirinha, que aliás não se usa mais. É assistente - ensina Rejane, que poderá ter a seu lado assistentes mulheres nesse Carioca: dos 37 assistentes, quatro são mulheres (Andréa Mafra de Sá, 36 anos, aspirante Fifa, Patrícia Silveira, de 31, aspirante Fifa, Carine Belmont, de 35 anos, também árbitra da CBF e Fabiana Pitta, de 31 anos, também árbitra da CBF).

Neste domingo, Fabiana estreia como assistente de Lenilton Junior, na partida entre Volta Redonda e Bangu, no Raulino de Oliveira. Andréa será a quarta árbitra.



As mulheres do Carioca

Dos dez clubes principais do Estadual, cinco contam com profissionais mulheres em seus elencos




Fonte: O Globo Online