Técnico do fraldinha se emocionou ao saber que Jorginho se inspirou em seu treino

Terça-feira, 10/05/2016 - 14:49
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Enquanto os jogadores e o técnico campões cariocas se dividiam entre entrevistas e a preparação para a festa de premiação do campeonato, o telefone de um até então anônimo funcionário do departamento de futebol vascaíno não parava de tocar durante a tarde e o começo da noite: Marcus Sant’Anna, de 27 anos, o técnico do time de futsal da categoria fraldinha (8 e 9 anos de idade) do Vasco, recebia os parabéns após Jorginho ter surpreendido ao revelar que o título também tinha sua participação.

— Tem uma coisa muito interessante que eu vou revelar: eu tenho o costume de assistir todas as categorias do clube, até mesmo o fraldinha. Inclusive, adotei uma saída de bola observando o futsal do fraldinha do Vasco — contara Jorginho à TV Globo, na manhã seguinte ao título.

Numa época em que a integração das categorias de base com o profissional é exaltada como o caminho a ser seguido para um clube ter seu estilo próprio de jogo, em São Januário ela é facilitada até por fatores geográficos: as quadras onde os garotos das categorias chupeta (6 e 7 anos), fraldinha e pré-mirim (10 e 11) treinam é logo ao lado do estacionamento dos carrões do elenco profissional. Virou hábito para Jorginho, antes de assumir o volante para ir para casa, parar para observar os garotos vascaínos e conversar com os outros treinadores.

— Fiquei emocionado quando soube o que ele falou. De certa forma, indiretamente, tem o meu dedinho lá (no título). Só de ele estar acompanhando ali, te dá um ânimo a mais para seguir na carreira — diz Marcus, que se formou em Educação Física após jogar futsal na adolescência, chegou ao Vasco em 2010 como estagiário e sonha em fazer carreira de treinador. — Quando ele (Jorginho) chegou ao Vasco, a diretoria nos apresentou, o clube estimula esta troca. Mas nos seis anos em que estou no Vasco, nunca tinha visto um técnico do profissional com tanto interesse. Ele passa lá quase todo dia, pergunta dos garotos, conversa.

Mas qual teria sido a ideia, para fazer a saída de bola de seu time, que Jorginho tirou da observação de treinos comandados por Marcus? O técnico do fraldinha vascaíno tenta responder:

— A gente faz uma saída, quando a bola está com o goleiro, que é baseada na movimentação. No futsal, jogamos com um fixo, dois alas e o pivô. Eu peço para os garotos rodarem, o fixo vira ala, o ala vai lá para frente, o time roda e obriga o rival a trocar a marcação. Ao sobrar um livre, o goleiro sai jogando. No campo, tem tido esta tendência de se sair jogando com toque de bola, sem chutão. É comum ver os zagueiros abrirem quase na lateral, os laterais avançarem — explica Marcus. — Não sei se teve alguma movimentação ensaiada que ele pegou, ou se foi mais o conceito do futsal, que, até pelo tamanho do campo, exige movimentação constante para se desmarcar. Eu também sempre vejo os treinos que ele dá no profissional, e ele usa muito o campo reduzido, forçando a movimentação.

A "COPA DO MUNDO" DE JORGINHO

Se para o jovem treinador do time fraldinha a participação indireta no título foi uma grande alegria, Jorginho, de vasto currículo vencedor no futebol, recebeu a conquista com a emoção de um principiante. Ele já ganhou uma Copa do Mundo como titular da seleção brasileira; por clubes, foi duas vezes campeão brasileiro e ganhou uma Copa da Uefa. Mas, no último domingo, chorava como criança no gramado do Maracanã após a conquista de um Estadual que logo qualificaria como “uma Copa do Mundo”, surpreendendo pelo valor sentimental que atribuiu ao título. Celebrava mais do que a primeira conquista como treinador no Brasil. Algo mais do que a afirmação em sua “segunda carreira” no futebol.

Segundo Jorginho, a trajetória construída no Vasco deu uma carga emocional ainda maior à decisão. Uma sucessão de acontecimentos iniciada em agosto do ano passado, ao assumir um Vasco que era dado como paciente terminal no Brasileiro. Virou pelo avesso o aproveitamento do time, mas já era tarde:

— Sofremos muito. Eu tinha uma convicção, uma certeza de que iríamos permanecer. Pela forma como trabalhávamos, por estarmos recuperando a pontuação do time. Fiquei muito chateado, triste mesmo. Mas tudo fortaleceu a amizade entre nós. Ali formamos um grupo campeão — conta Jorginho.

Veio 2016 e, com a base mantida, o Vasco iniciou sua caminhada mantendo uma longa invencibilidade que já chega a 25 jogos, a apenas seis da marca histórica do clube, de 1977. Às vésperas das finais, outro acontecimento ameaçou minar a unidade vascaína: o interesse do Cruzeiro pela contratação de Jorginho. Na visão do treinador, o episódio soou como uma nova prova da relação entre ele e os jogadores que comanda.

— A gente continuava invicto, tudo caminhando bem e, nas finais, surge um time interessado por mim. Aí os jogadores vêm falar comigo, mostram a importância da permanência, o quanto contavam comigo. Nenê veio me pedir. Então foi como uma Copa do Mundo mesmo para todos nós. Eu me senti como se estivesse novamente ganhando uma Copa. Foi muito marcante para mim, algo diferente de tudo o que já tinha sentido — completou Jorginho, durante o encontro dos técnicos, ontem na sede da CBF.



Fonte: O Globo Online