Hospital investiga vazamento de foto de exame de Eurico Miranda

Quarta-feira, 05/08/2015 - 23:57
comentário(s)

Vazamentos de imagens de pacientes dentro de hospitais são cada vez mais recorrentes. Entre os casos famosos, apenas este ano, o problema atingiu a apresentadora Angélica, fotografada durante atendimento após um acidente de avião; o cantor Cristiano Araújo — que já se encontrava morto no momento da foto —; e o presidente do Vasco da Gama, Eurico Miranda. Neste último caso, o mais recente, o dirigente estava internado na Casa de Saúde São José, no Humaitá, Zona Sul do Rio, quando um funcionário tirou uma foto fazendo um gesto obsceno junto a seu diagnóstico. A imagem teria vazado por WhatsApp e, menos de um mês após o ocorrido, o hospital decidiu fazer valer a cláusula de seu regulamento interno que proíbe os funcionários de usarem aparelhos eletrônicos dentro da instituição. Os médicos são a única exceção.

O documento com a regra foi distribuído à equipe de enfermeiros, técnicos e demais funcionários na última semana, conforme adiantou a Coluna Gente Boa. Ao iniciar a jornada de trabalho, eles devem deixar celulares e outros equipamentos em um guarda-volumes e retirá-los apenas ao final do expediente. Embora o hospital afirme que a norma já constava no regulamento há alguns anos, funcionários da casa alegam que o cumprimento dela só passou a ser exigido a partir de ontem. A instituição abriu inquérito administrativo para descobrir o autor da foto do diagnóstico de Eurico Miranda.

— Tão logo seja descoberta, essa pessoa sofrerá as penas cabíveis pela legislação trabalhista — diz o diretor-executivo da Casa de Saúde São José, Nélisson Espírito Santo. — A decisão de proibir aparelhos eletrônicos é embasada na qualidade da assistência aos nossos pacientes e do exercício das atividades dos nossos funcionários. Todos eles são informados dessa norma no ato da contratação e sempre podem usar os telefones fixos do hospital em casos de necessidade.

TRABALHO DE CONSCIENTIZAÇÃO

Outros centros de saúde do país também têm tomado medidas para evitar vazamento de imagens e informações. O Hospital São Carlos, no Ceará, realizou uma campanha de conscientização entre os funcionários depois que uma enfermeira de lá gravou um vídeo da chegada do jogador Neymar à instituição, durante a Copa do Mundo do ano passado. Na filmagem, ela mostra o atleta, que havia fraturado uma vértebra na partida contra a Colômbia, cruzando um corredor da unidade sobre uma maca. Ao final da gravação, a autora ainda manda um beijo para a câmera. Em função do episódio, a enfermeira foi demitida.

— Já tentávamos sensibilizar os funcionários para o uso consciente desses equipamentos, mas, com esse episódio, precisamos reforçar os trabalhos — conta a gerente de Recursos Humanos do hospital, Cecília Cardoso. — Promovemos palestras e reuniões em todos os setores, para que eles enxerguem o quanto esse tipo de postura é prejudicial.

Proibir o uso desses aparelhos, entretanto, não foi uma medida considerada pela equipe do hospital.

— Não proibimos porque a grande maioria do nosso quadro é formada por mulheres e mães. Sabemos o quanto é importante para elas manter o contato com a família. A mobilização que fizemos já rendeu bons resultados — diz Cecília.

O Hospital Universitário do Oeste do Paraná passou por situação semelhante em julho de 2014. A instituição proíbe o uso de aparelhos móveis dentro de salas clínicas e cirúrgicas, mas isso não impediu o vazamento de imagens do menino Vrajamany Rocha, atendido lá depois de ser atacado por um tigre em um zoológico. Duas fotos do garoto de 11 anos — uma antes da cirurgia e a outra logo após a amputação de seu braço — circularam na internet e motivaram uma investigação da Polícia Civil de Cascavel, cidade onde ocorreu o acidente. O hospital abriu sindicância para apurar o caso, mas ainda não chegou ao autor das fotos.

“O processo ainda está tramitando e não tem respostas. A conscientização foi feita pelos professores aos alunos residentes e da graduação”, informou o hospital, por meio de nota.

Para o diretor-executivo da São José, porém, campanhas de conscientização não são suficientes.

— Infelizmente, não podemos contar apenas com o bom senso das pessoas. Como não podemos arriscar, foi imprescindível agir de forma mais ostensiva — ressalta Nélisson Espírito Santo.

Segundo o vice-presidente da Associação de Hospitais do Estado Rio de Janeiro, Marcus Camargo Quintella, a medida adotada pelo hospital é importante porque o problema vai além do risco de vazamento de imagens.

— Há muitos relatos de procedimentos interrompidos por funcionários em função do uso desses aparelhos. É o caso de um enfermeiro que interrompe o trabalho para atender um telefonema — exemplifica. — Isso interfere na qualidade do atendimento, e a decisão (da Casa de Saúde São José) parte da compreensão de que celulares são equipamentos de uso pessoal, fora do horário de trabalho. Precisamos lembrar que a Humanidade viveu até hoje sem celular. Se houver alguma emergência, sempre haverá os telefones fixos dos hospitais.

"REGRA É ABSURDA", DIZ SINDICATO

Já o Sindicato dos Enfermeiros do Estado do Rio repudiou a medida, considerada discriminatória.

— Esta é uma regra absurda, e o pior é que deixa de fora os médicos. Por que também não vale para eles? Esta norma faz os outros profissionais se sentirem com menos direitos e, por isso, nós vamos acionar a Casa de Saúde São José judicialmente — afirma a presidente do sindicato, Mônica Armada.

O Sindicato de Auxiliares e Técnicos de Enfermagem do Rio endossa esse posicionamento, destacando que “essa atitude (do hospital) é autoritária e abusiva”.

Para o porta-voz do Conselho Federal de Medicina, no entanto, é impensável que a proibição se estenda para a classe médica.

— Seria muito problemático caso a norma incluísse os médicos, porque nós precisamos do celular para nos comunicarmos com pacientes que eventualmente não estão dentro do hospital e querem tirar dúvidas ou avisar sobre alguma emergência. O conselho nunca recebeu qualquer queixa em relação a mau uso de celulares por parte de médicos — diz o conselheiro Sidnei Ferreira.

A Secretaria municipal de Saúde do Rio, por sua vez, informou, por nota, que não proíbe o uso de celulares em suas unidades: “Os profissionais que não preservam informações do paciente estão sujeitos a sanções administrativas”.

O Conselho Regional de Enfermagem do Rio destaca que a proibição adotada pela Casa de Saúde São José “está amparada por preceitos legais, desde que o funcionário possa utilizar uma linha telefônica da empresa para ligações de emergência”, informou em nota.

Fonte: O Globo Online