Leila Pereira, sobre carinho da torcida do Vasco: 'Foi algo inédito! Muito gratificante'
Sexta-feira, 30/11/2018 - 19:17
A empresária Leila Pereira, 53, gosta de lembrar como, no início de 2015, começou a patrocinar o Palmeiras. Segundo conta, ninguém a procurou, foi ela que "bateu na porta" do clube com a maior proposta de patrocínio de camisa do futebol brasileiro.

A parceria, que hoje rende cerca de R$ 80 milhões por ano ao Palmeiras --sem contar empréstimos para a contratação de atletas--, transformou o clube alviverde em uma das maiores potências do futebol brasileiro, em um cenário em que agremiações têm dificuldade até para pagar os seus jogadores em dia.

Para Leila, a culpa disso é dos próprios clubes, que não mostram credibilidade para atrair grandes empresas.

"Quando chegamos, o Palmeiras estava há dois anos sem patrocínio, quase tinha sido rebaixado em 2014. Como um clube com a grandeza do Palmeiras não tinha patrocínio? Por falta de credibilidade. As empresas não querem se vincular a entidades assim", afirma a conselheira.

À Folha, ela faz um balanço do ano que culminou com a conquista do título brasileiro pelo clube e lembra as polêmicas em que se envolveu com a oposição e principalmente com seu ex-aliado e homem forte da política palmeirense, Mustafá Contursi.

Como vê os pedidos de outras torcidas para que você patrocine seus clubes?

Em São Januário [no jogo do último domingo entre Palmeiras e Vasco], o que o pessoal gritava: "Tia Leila". Foi algo inédito! Muito gratificante. Um carinho que o torcedor tem comigo e que me deixa muito emocionada. Contribuindo com o Palmeiras eu também contribuo para o futebol brasileiro como exemplo de administração, de que o apoio ao futebol dá retorno. Outras empresas podem ver esse modelo e adotar em outros clubes.

Por que não existem outras 'Crefisas' no futebol brasileiro?

Por falta de credibilidade dos clubes. Quando chegamos, o Palmeiras estava há dois anos sem patrocínio, quase tinha sido rebaixado em 2014. Como um clube com a grandeza do Palmeiras não tinha patrocínio? Por falta de credibilidade. As empresas não querem se vincular a entidades assim.

Sem a ajuda da Crefisa, o clube conseguiria sobreviver?

É difícil eu falar, porque eu sou patrocinadora e ponho dinheiro no clube. Mas o Palmeiras é gigante e sempre sobreviveu. Inclusive a dois rebaixamentos e quase um terceiro. É óbvio que sobrevive sem a Crefisa, mas tem que ver qual o projeto que conseguiria fazer. O palmeirense quer bom e barato? Não quer. Então, a Crefisa é muito importante para o projeto de um Palmeiras protagonista, vencedor.

Desde o início da parceria, o Palmeiras conquistou três títulos nacionais. A que atribui esse sucesso?

Houve uma série de coincidências muito positivas. Nós entramos em janeiro de 2015 e acho que dois meses antes inauguraram a arena, que dá uma renda muito grande ao Palmeiras. Junto, veio também um diretor de futebol extremamente vencedor, que é o Alexandre Mattos.

Qual é a prioridade do clube agora?

A prioridade sempre é conquistar títulos. Um clube não é para dar lucro. Óbvio que não é para dar prejuízo, tem que ter dinheiro em caixa, mas esse dinheiro é para ser aplicado para conquistar títulos. Também temos o clube social, e a casa do maior do Brasil tem que ser a melhor do Brasil. Aprovamos uma alteração no estatuto muito importante, que dá a possibilidade do clube receber recursos através da Lei de Incentivo ao Esporte. Com isso, podemos dar uma alavancada grande nos esportes amadores e aplicar no clube social.

Isso inclui investimento no futebol feminino?

Ainda não conversamos sobre isso, mas o que o clube precisar, eu colaboro. O Palmeiras tem que entrar sempre para ganhar. Não posso ter um time masculino top e um feminino que não seja protagonista.

Como conselheira, qual é o balanço que você faz de 2018?

Tivemos vitórias importantíssimas no conselho. A primeira foi aumentar o mandato de presidente de dois para três anos. Em dois anos é impossível administrar um clube. Falaram que isso era para me beneficiar, mas não é isso, é em benefício do clube.

Outra vitória é sobre os benditos aditivos [ao contrato de patrocínio, que foram revistos pela Receita Federal e se transformaram em dívida de R$ 120 milhões para o clube] que a oposição disse que prejudicam o Palmeiras. Sem eles, o clube não teria reforços e não conquistaria o título que conquistou. O conselho ratificou que a mudança de contrato de patrocínio para empréstimo é legal.

Reeleger o Maurício [Galiotte] também foi uma grande vitória. Ele tem feito um trabalho brilhante, modernizando o clube. Para fechar com chave de ouro, veio a conquista do título brasileiro.

Pretende se candidatar à presidência em 2021?

Meu mandato de conselheira termina em fevereiro de 2021 e vou me candidatar novamente. Enquanto o sócio me der essa honra, serei conselheira, porque acho que posso contribuir bastante, como tenho feito. Em novembro [de 2021], será a eleição para presidente. Aí eu preciso ver como estarão meus negócios, a minha vida. Posso ser candidata, mas só mais perto da data é que vou ver se será possível. Um presidente tem que dedicar sua vida ao clube. Se minha vida daqui a três anos for como está hoje, eu teria condições.

Não há conflito de interesses em uma conselheira ser também patrocinadora?

Em hipótese alguma. Isso é uma maldade da pequena oposição que tem no clube. Fora, as pessoas admiram isso. Como patrocinadora tenho um contrato que cumpro rigidamente. Como conselheira vou defender os interesses do Palmeiras. Eu só ponho dinheiro, não tiro do clube. Conflito de interesses são as pessoas que sempre vivem às custas do Palmeiras. Isso que dizem que [as contratações pagas pela Crefisa] eram doações e viraram empréstimos é mentira. Nunca houve doação. Foram aportes que fazíamos para aquisição de jogadores. Começou com Paulo Nobre. Foi tratado em contrato que a Crefisa compraria os jogadores, mas quando eles fossem vendidos, o clube devolveria o dinheiro. O lucro fica com o Palmeiras. No dia em que a Crefisa der prejuízo para o Palmeiras, me cobrem.

A oposição disse ter proposta de outro patrocinador...

Esse mesmo candidato da oposição [Genaro Marino], na época em que me tornei patrocinadora do Palmeiras, era vice-presidente do Paulo Nobre. Na época eles não conseguiam nenhum patrocínio. Eu bati na porta do Palmeiras e falei que gostaria de patrocinar o clube. Acho estranho que 3 ou 4 dias antes da eleição, apareça um papel falando que tem um patrocinador.

O clube tem que fazer o que for melhor para ele. É óbvio que se houver um patrocinador que pague mais e eu não consiga cobrir a oferta, eu abro mão, com dor no coração. Meu desejo é continuar no Palmeiras para o resto da minha vida, mas o Palmeiras tem que fazer o melhor para ele. Eu continuaria contribuindo de outra forma, porque não vou sair do clube. Mas não sei que empresa é essa. Acho que aquilo foi para conturbar.

Como é sua relação com Paulo Nobre e Genaro?

Eu não vejo o ex-presidente [Paulo Nobre] desde o final de 2015. Acho que se ele passar na rua eu não sei quem é. Ele me atacou muito desnecessariamente. Com Genaro também não tenho relacionamento, ele também me atacou demais. Eles querem o meu dinheiro, mas me querem fora [do clube]. Isso não é possível, tem que ser o pacote completo. Com o Mustafá [Contursi, ex-presidente], a mesma coisa. Depois daquele escândalo da venda dos ingressos [Mustafá teria vendido entradas que haviam sido repassadas pela Crefisa para que ele distribuísse a conselheiros], não tive mais relacionamento nenhum.

A oposição diz que você colocou sócios no clube para receber votos. Isso aconteceu?

Eles deveriam colocar também, como eu coloco. Mas o voto é secreto, na urna, não tenho como saber em quem votam. Para votar, precisa ser sócio por três anos. Eu vou continuar colocando sócios pelo clube. São sócios que pagam mensalidade, consomem artigos do clube, vão ao restaurante. Indicamos centenas de funcionários nossos, que estão lá proporcionando receita para o clube. Se não têm recurso para colocar, não perturba quem tem. Eles [oposição] reclamam de qualquer jeito. Porque com o Palmeiras protagonista, moderno e profissional, os sanguessugas que vivem às custas do clube não vão poder mais "mamar nas tetas".

Quais serão as bases para a renovação do patrocínio?

Ainda vou conversar com o Maurício, mas uma coisa eu digo: não vou diminuir o valor.



Fonte: Folha de S. Paulo