Futebol Feminino: Primeira técnica de Marta no Vasco lembra do início da jogadora no clube
Segunda-feira, 30/10/2017 - 11:39
Logo que avistou aquela menina de 14 anos tímida e calada, Helena Pacheco soube que estava diante de um grande talento. A garota nem sequer havia tocado os pés na bola, mas a experiente técnica já havia detectado em seus olhos algo diferente.

"Virei para meu assistente e falei: essa tem uma cara boa. Tem raiva da vida. Isso é importantíssimo pra você vencer. E ele me disse: 'mas você nem viu ela jogar!' Mas eu nem precisava ver. A raiva da vida estava na cara dela, nos olhos", conta Helena à BBC Brasil.

O nome da menina: Marta.

No dia seguinte, parecia que a jovem mirradinha que chegou ao Vasco após viajar por três dias de Dois Riachos (AL) até o Rio de Janeiro havia se transformado. "Quando aquela garota tímida começou a tocar na bola, ela começou a crescer. Ficou ambientada com o espaço e batia na bola maravilhosamente. Driblava como ninguém, aí encheu a goleira com uma patada de canhota."

Esse foi o primeiro chute a gol de Marta: uma pancada que atingiu em cheio o rosto da goleira. Parecia que aquela menina queria chutar para longe todos os preconceitos e os obstáculos que já havia enfrentado para chegar até ali.

"Eu falei para ela: olha, você não pode chutar na cara da goleira, se não você vai machucá-la. Ela nem respondeu, foi lá e fez de novo. Ela queria vencer, essa era a raiva dela", relatou a treinadora do Vasco à época.

Não foi preciso mais do que isso para que Helena desse um contrato para Marta assinar e abrisse as portas de um dos melhores clubes de futebol feminino da época para a menina de 14 anos iniciar sua carreira. As duas tiveram pouco tempo de convivência, já que dois anos depois o Vasco acabaria com a equipe de mulheres por falta de verba.

"Ela sofreu muito quando o Vasco acabou. Mas aí conversei com o presidente (Eurico Miranda) e ela e outras jogadoras puderam continuar morando lá. Depois, ela foi jogar em Minas com pessoas que a gente conhecia."

A própria Marta cita Helena como "uma mãe" para ela no futebol. Quando recebeu proposta ir jogar na Suécia, a então garota-prodígio de 17 anos recorreu à ex-treinadora para ver se a oportunidade era mesmo real.

"Ela foi na minha loja e falou: me convidaram pra jogar na Suécia. Um presidente de um time assim, assim. Aí fui checar se esse cara existia. Aí ajudei com a questão do passaporte, falei para ela pedir algumas garantias, para ela ligar pra mim se qualquer coisa desse errado. Ela ouvia muito bem. Conseguia ouvir e saber o que era certo e errado. E sempre foi muito corajosa."

Mas não foi só aquela menina que viria a conquistar por cinco vezes o prêmio de melhor jogadora do mundo da Fifa que passou pelo crivo de Helena antes de entrar de vez no futebol. A treinadora também revelou outras duas das melhores atacantes que passaram pela eleção brasileira: Pretinha, a terceira maior artilheira do Brasil, e Kátia Cilene.

"Você vê o talento da atleta assim que ela coloca o pé na bola. Ela tem umas habilidades que são diferentes, têm uma coordenação motora totalmente diferenciada. Você vê o dom do futebol de imediato. É muito fácil perceber como ela trata a bola, como ela tem o corpo em movimento com a bola, a habilidade salta aos olhos."

Início - futebol proibido

Apesar de ter feito história no futebol, Helena começou sua carreira no esporte no vôlei - até porque, durante a infância dela, o futebol era proibido por lei para mulheres (o decreto valeu de 1941 a 1979). Mas por ser de uma família de esportistas, a menina até jogava uma bolinha de vez em quando.

Depois de décadas como jogadora de vôlei, ela teve a chance de se aventurar no futebol quando atuava por um clube federal no Rio de Janeiro. Daí em diante, esse passou a ser seu esporte de trabalho.

"Apareceu uma brincadeira no clube e todas as meninas tinham que jogar todos os esportes. Esse clube inscreveu a gente para jogar futebol de areia de 11, e aí montamos um time. Foi isso que deu 'start' pra eu participar mais", conta.

Ela passou a atuar no Radar, time tradicional de futebol feminino do Rio de Janeiro, e foi com ele para uma excursão para os Estados Unidos. Ali, no "país do futebol feminino", conheceu mais a modalidade e voltou com vontade de continuar nela.

Como a idade já estava avançando, optou por virar técnica e foi estudar - e ali encontrou um novo obstáculo. Como resquício do decreto-lei que proibia mulheres de jogarem futebol, a Faculdade de Educação Física também não permitia a elas cursarem a disciplina relacionada a essa modalidade.

"Quando cheguei na (Universidade) Gama Filho, vi que futebol eu não podia fazer. Tive que pedir para o reitor para poder assistir às aulas como assistente. Não tinha nota e não poderia ter aquela disciplina no meu currículo", explica.

Mas a decepção com o curso de Educação Física não foi o bastante para fazer com que Helena Pacheco desistisse de seguir seu objetivo de ser técnica. Ela correu atrás de cursos paralelos e se tornou uma das primeiras mulheres a atuarem como treinadoras de futebol no país.

E foi no início da década de 1990 que ela deu início àquela que talvez tenha sido uma das experiências mais bem-sucedidas de futebol feminino no país, com o Vasco da Gama.
Auge

Entre 1992 e 2001, a equipe do Vasco montada por Helena era conhecida como "o time invencível". Foram quatro títulos nacionais e cinco estaduais, além do celeiro de atletas que ela fez o clube se tornar - na época, metade da seleção brasileira jogava ali.

"Trabalhar com a Helena era trabalhar com muita disciplina, com amor, com afinco. Ela sempre foi uma pessoa perfeccionista, não gostava de perder, acho que essa era a marca do Vasco, ela passava muito isso pra gente", contou Leda Maria, meio-campista que atuou sob o comando da treinadora por quase uma década no clube carioca.

"Ela fazia um trabalho estruturado, trabalhando categorias de base e o profissional. Assim ia descobrindo talentos, formando atletas, fomentando o futebol feminino. Nosso time era invencível justamente por isso, porque tínhamos trabalho de base. Ela dava essa estrutura pra gente."

Mas não era fácil atuar no futebol feminino em uma época em que o preconceito contra a mulher que jogava bola era ainda muito maior. Até hoje, Helena guarda um uniforme de uma das principais jogadoras que revelou, a atacante Pretinha, e mostra o tamanho dele: masculino.

"Naquela época, ninguém se importava em fazer uniforme do tamanho certo para as meninas", diz ela.

A estrutura fornecida pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) naquele tempo também era precária. O Campeonato Brasileiro era realizado em uma cidade só, com apenas 15 ou 20 dias de duração e as jogadoras dormindo em alojamentos de escolas ou quartéis militares. Muitas vezes, as equipes nem sequer tinham 24 horas de descanso entre um jogo e outro.

"Eles colocavam jogo do feminino para acontecer ao meio-dia, em pleno sol de verão no Brasil. Aí no dia seguinte era a mesma coisa, jogo ao meio-dia. Se nem no futebol masculino profissional existe de colocar jogo todos os dias, imagina a mulher que jogava menos, que mal tinha estrutura para treinar na época", conta.

Ganhando respeito pelos títulos que conquistava e pelas atuações impecáveis de seu time, Helena começou a ser o nome mais cotado para assumir a seleção feminina. No entanto, as indisposições que vivia tendo com a CBF pela organização dos campeonatos a mantiveram distante de um convite.

Em um desses torneios, o Vasco chegou à final contra a Portuguesa, outro time de muita qualidade na época. Na decisão, as cariocas não foram bem no primeiro tempo - Leda descreve que Helena puxava as calças para cima e que "parecia que iria tirá-las pela cabeça". Mas na volta do intervalo, o time vascaíno venceu por 2 a 0 e levou o título.

Quem ficou com o cargo de treinador da seleção, porém, foi o técnico ca Portuguesa.

"Acabou que convidaram o técnico que tinha sido vice-campeão, não quem ficou com o título", disse Helena.

"Eu reclamava dos alojamentos, dos horários dos jogos, e eles ficavam putos comigo. Aí só teve um contato de um dos diretores da CBF que veio me chamar para ser assistente do técnico que estava na seleção para depois assumir o time. Eu falei: o senhor quer que eu seja assistente do cara para depois puxar o tapete dele? Me desculpe, mas isso vai totalmente contra o que eu acredito. E nunca mais me dirigiram a palavra", afirma.

Sem o reconhecimento na CBF e com o fim do time do Vasco no início dos anos 2000, a treinadora chegou a participar de um projeto nos Estados Unidos, na criação da liga americana de futebol, e depois voltou ao Brasil, onde atuou apenas como professora da modalidade. O convite para atuar de alguma forma na seleção brasileira nunca veio, e ela acabou se afastando de vez do futebol há alguns anos.

Hoje, porém, Helena lembra com nostalgia os tempos áureos que viveu no futebol feminino e tem a sensação de que houve um certo retrocesso na modalidade - principalmente em termos de visibilidade na mídia e da existência de clubes grandes investindo nela.

"Eu acho que piorou porque os investimentos dos clubes são muito menores. Poucos têm base para formar atletas. Você tem campeonatos que são o espelho disso, times ruins, pouca qualidade, embasamento ruim de treinamento. Isso é uma das coisas que me entristece, como alguém que sabe trabalhar com o futebol", pontua.

No Rio, o Vasco mantém hoje apenas um time de base de futebol feminino, enquanto o Flamengo empresta a camisa para um time que é bancado pela Marinha. Já Botafogo e Fluminense não têm, por enquanto, projetos na modalidade.

Helena ressalta que a falta de visibilidade na mídia torna ainda mais difícil o crescimento do futebol feminino.

"Lembro que, quando a Pretinha foi eleita uma das melhores jogadoras da Olimpíada em 1996, a Xuxa fez um programa falando sobre futebol feminino. Chamou a Pretinha, várias meninas do Vasco, fizeram brincadeira no palco e colocaram no ar telefone do clube pras meninas interessadas em fazer teste. Choveu de telefonema lá. Chegava jogadora de tudo quanto é lugar. Para mim, essa visibilidade era importante", diz.

"Por que não descobriram nenhuma Marta, Sissi, Pretinha? O talento no Brasil sai de todos os lugares. Existe carência de estrutura, não de talento. Carência de oportunidade para que a menina comece um trabalho com embasamento no futebol, um lugar pra treinar, pra ser orientada."



Fonte: BBC