Projeto do Vasco ajuda no crescimento do esporte paralímpico no Brasil
Domingo, 10/09/2017 - 02:38
Em setembro de 2016, a carioca Dayana Caroline de Castro assistia aos Jogos Paralímpicos do Rio pela TV, quando as conquistas de Daniel Dias a fizeram tomar uma decisão. A adolescente, que tem um encurtamento da perna direita, decidiu que queria fazer natação. Meses depois, a estudante de 14 anos já estava nadando numa das equipes paralímpicas do Vasco, que mantém atualmente atividades físicas para 98 atletas das modalidades de natação, futebol de 7 (paralisados cerebrais) e vôlei sentado. Dayana é uma dentre muitos brasileiros com deficiência que procuraram um esporte para praticar, embalados pelo sucesso da Paralimpíada do Rio. Um ano após o início dos Jogos, o Brasil ainda vivencia o crescimento do esporte adaptado, com Comitê bem estruturado e um moderno centro de treinamento em São Paulo.

- A Dayana sempre foi fã do Daniel Dias. Eu cheguei a colocá-la na natação convencional antes, mas depois da Paralimpíada do Rio decidimos procurar um clube que tivesse natação paralímpica. Como moramos em Anchieta (Zona Norte do Rio), escolhemos o Vasco, que é mais perto e tem um projeto voltado para pessoas com deficiência. Ela estuda de manhã e treina quatro vezes por semana à tarde. Dou muita força e vejo todo o esforço dela. Em breve, a Dayana vai participar dos Jogos Estudantis. Estamos todos muito empolgados - disse a mãe de Dayana, Cintia Ribeiro.

A 480 km do Rio, na pequena cidade paulista de Águas de São Pedro, os gêmeos Pedro Henrique e Matheus Henrique, ambos diagnosticados com autismo, vivem história semelhante à de Dayana. Ao assistirem a uma reportagem sobre o sucesso de um atleta paralímpico, os jovens de 17 anos resolveram procurar um local para praticar alguma modalidade. O esporte escolhido também foi a natação. Pedro já nadava desde os nove anos, mas competia entre os convencionais. No entanto, as dificuldades por causa da deficiência intelectual o fizeram abandonar o esporte até encontrar a variante paralímpica.

- Depois da Paralimpíada, fomos a Indaiatuba procurar a ADI (Associação Desportiva Indaiatubana). O que nos motivou foi uma reportagem sobre um atleta asiático com autismo que competiu no Rio. Ali nós vimos que o esporte paralímpico era um caminho legal. Hoje o Pedro já obteve índice para disputar o Nacional. O Matheus também vem evoluindo. Posso dizer que a ida deles para o esporte mudou completamente a nossa vida. Criamos uma rotina nova e agora eles podem competir sem se sentirem discriminados - contou a mãe dos gêmeos, Priscila Mergulhão.

O boom do esporte paralímpico no Brasil não acontece por acaso. Apesar de não ter chegado à meta do top5 na Rio 2016, os atletas brasileiros obtiveram 72 medalhas na Paralimpíada, recorde do país na história dos Jogos. O último ciclo foi realizado sob um investimento inédito. Somente em 2016, o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) teve um orçamento de R$ 142.098.431,22, sendo R$114.225.423,09 oriundos do repasse das loterias através da Lei Agnelo/Piva.

O momento favorável do esporte paralímpico no Brasil contrasta, inclusive, com as dificuldades encontradas pelo esporte olímpico brasileiro neste início de ciclo. Enquanto o Comitê Olímpico do Brasil (COB) e as confederações nacionais encontram problemas para se reestruturar financeiramente após a Rio 2016, o CPB já arrecadou R$ 90.338.369,97 este ano - dados consolidados pela entidade até julho.

Uma parte considerável da receita do CPB vem da Lei 10.264 de 2001, que no início de 2016 sofreu uma alteração beneficiando o esporte paralímpico. Antes, a Lei Agnelo/Piva previa que 85% do dinheiro repessado pelas loterias (2% do valor arrecadado por elas em todo o país) ficavam com o COB. Com isso, apenas 15% do montante ia para o CPB. Desde o ano passado, quando a Lei Brasileira de Inclusão foi aprovada, a porcentagem do repasse subiu para 2,7% e a fatia destinada ao esporte paralímpico passou de 15% para 37,04%.

- A ideia da nova gestão é buscar consolidar, cada vez mais, o esporte paralímpico enquanto produto. A gente já está em conversa com algumas empresas importantes e a nossa expectativa é de que a gente possa concluir este ciclo com um percentual mais significativo de financiamento privado. Maior desafio será, além de manter todo o trabalho de excelência que vem sendo feito nos últimos anos, conseguir avançar. E a receita disso é, óbvio, muito trabalho e muita dedicação, contando com o apoio de uma grande equipe que a gente está montando - afirmou Mizael Conrado, presidente do CPB desde março deste ano.

O CPB também conta com o patrocínio das Loterias Caixa e da empresa de plástico Braskem. Somente o banco estatal investirá R$ 95 milhões em 11 modalidades paralímpicas e individualmente em atletas neste ciclo. Pelo acordo, serão repassados R$ 40 milhões nos dois primeiros anos da parceria. Em 2019, ano dos Jogos Parapan-Americanos de Lima, no Peru, serão investidos outros R$ 25 milhões.

Atletismo, natação, halterofilismo, esgrima em cadeira de rodas, tiro esportivo, futebol de 5, bocha, goalball, rugby em cadeira de rodas, tênis de mesa e vôlei sentado são as modalidades beneficiadas.

Centro de treinamento de SP recebe legado da Rio 2016

Inaugurado em maio de 2016 depois de obras que custaram R$ 264,7 milhões - R$ 145 milhões do Governo Federal e R$ 119,7 milhões do Governo Estadual de SP - o Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro, em São Paulo, recebeu diversos equipamentos e materiais esportivos utilizados na Rio 2016. Estruturas como halteres e pesos do halterofilismo, mesas de tênis de mesa, pisos dos campos de futebol, traves de goalball, bolas dos mais diversos esportes e cadeiras de arquibancada ganharam reúso após os Jogos.

Só nos primeiros quatro meses de 2017, mais de 2 mil atletas treinaram no CT, incluindo entidades esportivas de Japão, Holanda, Canadá, Argentina. Há também parcerias com clubes e escolinhas esportivas que usam o local. Em março, o CT Paralímpico recebeu a sua primeira competição internacional, os Jogos Parapan-Americanos de Jovens, que reuniu 800 atletas de 19 países. A previsão é que sejam realizados mais 100 eventos esportivos no CT até o fim do ano.

Muitos atletas de elite utilizam o CT para treinamento. Caso do nadador Phelipe Rodrigues, que se prepara para o Mundial do México, de 30 de setembro a 6 de outubro na capital mexicana.

- O CT Paralímpico do Brasil não deixa nada a dever para nenhum outro do mundo. Eu já viajei para muitos lugares dos Estados Unidos e Europa, já morei dois anos na Inglaterra em busca de estrutura, e em nenhum lugar do mundo, vi um local tão completo e acessível quanto o nosso CT. Aqui, temos tudo que um atleta de alto rendimento precisa. Com isso, além de não perdemos tempo no trânsito, essa integração é ótima para a equipe multidisciplinar que nos acompanha - comentou o nadador da classe S10.

A mesa-tenista catarinense Danielle Rauen trocou Piraciciba por São Paulo este ano para utilizar o centro de treinamento. Medalhista na Rio 2016, a atleta natural de São Bento do Sul

- Acredito que o CT tem contribuído para o meu desenvolvimento como atleta. Esse ano, que eu me mudei para São Paulo e passei a treinar aqui, foi quando eu obtive os meus melhores resultados. Posso dizer que é um CT de primeiro mundo, mesmo porque nós viajamos bastante e conhecemos bem a estrutura dos outros países



Fonte: GloboEsporte.com