Philippe Coutinho não se arrepende de ter deixado o Brasil cedo

Domingo, 04/03/2012 - 10:21

Jogar em Barcelona tornou-se o objetivo profissional da maioria dos adolescentes que começaram no futebol na última década. O destino colocou Philippe Coutinho lá, mas não foi dos mais generosos. No Espanyol, “primo pobre” do melhor time do mundo, a revelação que deixou o Vasco aos 18 anos tenta um breve recomeço.

Depois de um período de altos e baixos no Internazionale de Milão, o meia fará o seu quinto jogo seguido como titular neste domingo, diante do poderoso Real Madrid, no Santiago Bernabéu. Ele sabe que uma boa atuação dará cartaz suficiente para alimentar a sua maior meta de 2012: disputar as Olimpíadas de Londres com a Seleção Brasileira.

Philippe não se arrepende de nenhum passo dado na precoce carreira. Campeão mundial sub-20 na Colômbia, em agosto de 2011, o jogador ficará na Espanha por empréstimo até junho. Para ele, experiências que o recompensarão na frente por trilhar caminho oposto ao de colegas como Oscar, Neymar, Lucas e outros.

Coutinho poderá ajudar o Espanyol a conquistar uma rara vaga na Liga dos Campeões, mas ter de voltar para a Itália com o seu time ainda lidando com a crise. Ele prefere não pensar nisso e reforça que o agora é o que importa. De preferência com um resultado que surpreenda o líder do Campeonato Espanhol, toda a sua torcida e o técnico Mano Menezes. Confira a entrevista completa:

Como está essa vida nova no Espanyol? Você tem jogado, o que é importante e não acontecia muito no Inter de Milão...

Estou bastante feliz, todos me receberam muito bem desde o primeiro momento, grupo é bastante unido, o treinador (o argentino Pochettino) também me apoiou. Jogamos quatro jogos até agora e eu comecei os quatro. Estou tendo oportunidades, me sentindo muito bem. Quero é jogar.

Como funciona em Barcelona o tratamento ao Espanyol? A mídia praticamente só fala do Barça, mas e a torcida na cidade?

Os únicos dois jogos que eu pude participar em casa receberam ótimos públicos (média de 26 mil). E na rua também, aqueles que são torcedores mesmo pedem eu para tirar foto, dar autógrafos. O pessoal fala um pouco mais do Barcelona, mas isso é normal, não tem jeito de se comparar com eles (risos). Só que tem muito torcedor do Espanyol também.

E a cidade, neste pouco tempo livre que teve, conseguiu aproveitar os pontos turísticos?

Até agora não conheço quase nada da cidade, o treino é muito forte de manhã e de tarde, nem tive tempo para visitar nada. Mas conheci em um evento o Thiago (Alcântara), que é muito gente boa. Conversamos bastante, ficamos até de marcar algo, mas não saí muito ainda. Shopping é o lugar que mais freqüento. Moro perto da praia, mas o frio também não ajuda (risos). Daqui a pouco ficará calor e vou aproveitar esses dias lindos de sol que fazem por aqui. Por enquanto só engana, porque está frio mesmo.

Do que você pôde ver em campo, é impossível concorrer com Barcelona e Real Madrid? Até que os chamados pequenos têm feito jogos duros, o Barça já perdeu pontos, principalmente fora de casa...

Ainda não tive oportunidade de jogar contra eles, nosso primeiro desafio será agora contra o Real Madrid. São uns monstros jogando. Os outros times também que joguei contra (Athletic Bilbao, Zaragoza, Getafe e Levante) também são muito bons. O futebol é diferente da Itália. Lá é muita força física, aqui é mais técnica, toque de bola. Os times que a gente jogou contra são fortes, o campeonato é bem disputado fora Real e Barça.

Como foi quando você viu pela primeira vez a torcida aplaudir o minuto 21 inteiro em homenagem ao Dani Jarque (que morreu de ataque cardíaco em campo)?

É muito legal, uma homenagem bastante bonita mesmo. Dá para sentir a emoção dentro do campo. Quando cheguei ao clube a diretoria já havia comentado comigo, mas no calor do jogo eu não me liguei na hora. Do nada começaram a bater palmas, o nosso time tocava a bola, perdia e eu não entendia nada. Os meus irmãos estavam aqui e também estranharam, só depois que foram entender (risos).

O seu empréstimo é até o meio do ano. Como seria classificar o Espanyol para a Liga dos Campeões e voltar ao Inter de Milão fora? No mínimo uma sensação estranha...

Tenho visto alguns jogos do Inter, mas estou com a cabeça aqui. Torço bastante para eles, mas procuro fazer o meu papel. Tenho um objetivo na minha cabeça que é ir para as Olimpíadas. E de lá só vou acompanhando e torcendo. Só o tempo vai dizer mesmo o meu futuro. Não sei o que vai acontecer, sei que o certo são esses poucos meses até o meio do ano. Mais pra frente vamos ver o que vai rolar. Deixo que aconteça naturalmente.

Sonho com Olimpíadas: campeão do Mundial Sub-20 (veja Coutinho em ação ao lado), foi até um empréstimo com esse objetivo, para jogar e mostrar para o Mano que pode concorrer a uma vaga? Você já jogou em todas as categorias de base, desde sub-15 até sub-20... Com a sub-23 completaria o ciclo.

Idade eu tenho, lá no Inter é que não tinha oportunidades. Agora tenho visibilidade com o empréstimo. Foi por isso que pensei bastante em vir para o Espanyol, é um time que tem visibilidade boa, estou em um campeonato muito bom. Jogando bem por aqui as coisas tendem a acontecer da forma que almejo. Tenho o objetivo na minha cabeça, mas penso passo a passo. Ir bem no jogo de domingo, depois no próximo, e as coisas acontecem. Mas é claro que se for bem especificamente neste domingo (contra o Real Madrid) terá um peso maior (risos).

A propósito, você tem conversado com o Ney Franco?

Há muito tempo que não falo com o Ney, desde o Mundial Sub-20 que não tenho muito contato. Mas acredito que o Mano e o Ney Franco vão estar olhando em todos os lugares, cada um que jogar bem vai ter sua oportunidade.

Outro dia você esteve num evento com o Thiago Alcântara (meia ítalo-brasileiro naturalizado espanhol do Barcelona). Não seria bom fazer dupla com ele no meio-campo da Seleção Brasileira?

É uma pena, pois é um cara que joga muita bola, já tinha jogado contra ele quando era pequeno, no salão, desde ali já tinha visto a qualidade. Está jogando muito no Barcelona. É uma pena perder um jogador assim, que poderia dar tantas alegrias pra gente, para o povo brasileiro. Ainda não o vi no campo, mas dizem que a qualidade ainda é mais impressionante. E também falam o mesmo do irmão dele (Rafinha Alcântara). Para o Brasil seria muito bom que não seguisse os passos do irmão preferindo a Espanha.

Como vê o ressurgimento do Vasco, trilhando caminho de títulos, disputando em cima? Quando você saiu ainda estava tentando se reerguer na volta da Segunda Divisão.

Eu sempre acompanho o Vasco daqui, vejo os jogos, notícias, tenho muitos amigos lá dentro e fico muito feliz porque o Vasco voltou a ser o gigante que sempre foi. Não merecia estar naquela situação. E hoje está disputando títulos, ganhando, brigando, sempre acompanhando. Vi a final da Taça Guanabara pela internet, é uma pena a derrota, pois a campanha tinha sido maravilhosa, mas são coisas que acontecem. Bola para frente, tem o segundo turno, a Libertadores. Mas nesse caso é bem difícil de ver, os jogos de noite lá são muito tarde aqui. Quando eu acordo vou logo para a internet me informar (risos).

Por falar em Vasco, se fizer um balanço hoje do rumo que levou a sua carreira, acha que poderia ter ficado mais tempo jogando no futebol brasileiro? Lucas, Neymar, Ganso, Damião... Todos estão ficando e até aparecendo mais por isso.

Daquilo que eu fiz de ter sido vendido cedo, ido para o Inter de Milão eu não me arrependo de nada. Todo mundo fala isso, que talvez se ficasse seria melhor, mas não me arrependo de nada. Nos anos em que fiquei no Inter de Milão eu aprendi bastante. Agora na Espanha também, tudo isso é diferente, estou ganhando mais em cultura, em experiência. O futebol jogado nos três países é diferente, ganhei muito com isso. No fim serei recompensado.

Você já não está mais no dia a dia, mas sabe da grande crise pela qual atravessa o Inter de Milão. Há explicações? Os críticos dizem que aquele time campeão envelheceu...

Tem condições pra melhorar, os jogadores que estão lá são super famosos, com nome, já ganharam tudo, então condições têm. Eu estou agora no Espanyol, bem focado. Procuro não me preocupar com as coisas lá, mas torço bastante daqui e espero que mude a situação o mais rápido. É difícil um time ganhar tudo e estar sempre lá em cima. O Inter é um time grande e precisa de tranquilidade. Vai ficar tudo bem.

Sentiu-se prejudicado por algum treinador no Internazionale de Milão?

Lógico que com o (Rafa) Benítez eu jogava mais, ele dava as oportunidades e me ajudou bastante. Mas não acho que alguém quis me atrapalhar. Todo mundo quer jogar, é claro, mas acho que foi bom o tempo em que passei lá, seja no banco, entrando no segundo tempo ou titular. Bom para mim é ganhar experiência, ainda mais eu que não tenho nem 20 anos.

E quanto aos brasileiros de lá, mantém contato nesse período difícil?

Tinha bastante contato com eles, estávamos sempre juntos, principalmente com o Lúcio. Ia na casa dele, ele ia na minha também... Às vezes nos falamos pelo telefone e por mensagem. É bom até para passar bons fluidos. O time está em uma situação difícil, mas torço para ganhar. Aqui também fizemos quatro jogos e não ganhamos nenhum. Tomara que seja nesse domingo.



Fonte: GloboEsporte.com