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| NETVASCO - 01/09/2005 - 01:33 - Atletas de base do Rio de Janeiro sofrem com falta de recursos Vilson Thomaz Mendes, de 17 anos, recebe R$ 10 por dia da mãe, Iris, empregada doméstica. Morador de Santa Cruz, Zona Oeste do Rio de Janeiro, Vilson acorda às 5h30 para ir à escola Santa Mônica, onde cursa o primeiro ano. Às 11h30, almoça em uma pensão de seu bairro, onde a quentinha custa R$ 5,50. Esta é a sua única refeição no dia. Como é prato feito, o atleta juvenil, especialista nos 200m e 400m rasos, não consegue ter uma dieta balanceada. Às vezes é obrigado a comer alimentos pesados, como carne de porco, horas antes do treino. Até chegar ao Estádio Célio de Barros, no Maracanã, onde treina, Vilson leva duas horas após uma viagem de trem e outra de ônibus. O trajeto, ida e volta, custa R$ 4,50. Por não receber qualquer tipo de ajuda do Vasco, clube que representa, Vilson já ouviu inúmeros pedidos do pai para deixar o esporte, mas ele insiste. Torce para conseguir um patrocínio ou algum convite de clubes do interior de São Paulo. O que o prende ao Vasco é a técnica Vania Maria, que considera sua segunda mãe. Se até o fim deste ano Vilson não conseguir patrocínio, ele pretende se alistar no Exército. A dois anos dos Jogos Pan-Americanos de 2007, o Rio de Janeiro perderá mais uma promessa do esporte. - Infelizmente, todo apoio é voltado para os atletas já formados. Ninguém dá atenção para quem está começando. Já treinei muitas vezes com fome e passei até mal na pista. Muitas outras vezes deixei de vir treinar por falta de dinheiro. É a única ajuda que peço - lamenta. A situação continuará desalentadora para atletas como Vilson. Ruy Cezar Miranda Reis, ex-secretário de Esportes e Lazer da cidade e agora chefe da Secretaria Rio-2007, acredita que não há mais tempo para formar talentos para o Pan e que novas promessas só surgirão após a competição. Segundo ele, o Pan deixará equipamentos e centros de treinamento que servirão de sede para projetos sociais. Cita como exemplos o Parque Aquático do Autódromo, que será usado pelas comunidades de Rio das Pedras e da Vila Kennedy, o Estádio Olímpico João Havelange, que abrigará projetos no Engenho Novo, e o Miécimo da Silva, que ampliará o atendimento à comunidade carente. Visando fomentar o surgimento de novos talentos, em janeiro de 2003 a Prefeitura do Rio de Janeiro criou a Secretaria Municipal de Assuntos Estratégicos. Liderada por Patrícia Amorim, ela tinha por objetivo, como está escrito em seu estatuto, "promover condições materiais e de recursos humanos, capaz de desenvolver a excelência do rendimento desportivo até o Pan 2007, a partir da integração entre o Comitê Olímpico Brasileiro (COB), confederações, federações, clubes e entidades". Esta integração nunca saiu do papel. No começo deste ano, Patrícia deixou a secretaria alegando que não tinha recursos suficientes para tocar o projeto e que não havia esforço por parte de clubes e entidades em ações de formação de novos atletas. Ela contava com R$ 1,6 milhão por ano, que se reduzia pela metade se descontados os salários de 15 funcionários e outras despesas. Segundo cálculos da vereadora, seriam necessários R$ 50 milhões anuais para cumprir a missão da secretaria, que se tornou meramente administrativa. O presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman, acha que só um investimento pesado transformaria o Rio em um pólo do esporte. - Sem recursos financeiros, nada se faz. Estamos caminhando, mas ainda temos um percurso longo a ser percorrido neste sentido. Temos que nos adequar à realidade dos fatos e não ficar perdendo tempo com lamentações. Sabemos que a evolução será rápida na mesma proporção que tivermos mais recursos para investir no esporte. Mesmo com o fim da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Ruy Cezar defende que a prefeitura vem investindo em novos talentos nos últimos anos. Cita como exemplo o Bolsa Esporte, que, segundo ele, no começo de 2002, selecionou 300 atletas nas vilas olímpicas e escolas municipais, que passaram a receber bolsas de R$ 60 a R$ 180. Segundo o prefeito do Rio, Cesar Maia, esta é a obrigação da prefeitura: cuidar da base. A ajuda parece um sonho distante para pessoas como Marynna Dias, de 17 anos, bicampeã brasileira (2004 e 05) de arremesso de martelo na categoria menores. Ela é atleta da Vila Olímpica da Mangueira, mas nunca viu a cor do dinheiro, nem conhece alguém que tenha recebido qualquer quantia. Daqui a 30 dias, Ruy Cezar pretende apresentar ao prefeito um projeto voltado para os atletas cariocas que têm chance de competir no Pan-Americano. Graças a ele, técnicos e esportistas fariam intercâmbios, competindo no exterior, em projeto semelhante ao que Patrícia Amorim desenvolvera à frente da Secretaria de Assuntos Estratégicos. - Eles estão querendo fazer mais da mesma coisa. Apoiar atletas já formados é a coisa mais fácil do mundo. Quero ver eles fazerem um bom trabalho de base, para manter os atletas no esporte - afirma Patrícia Amorim. Ruy Cezar explica que as verbas para o seu projeto, ainda sem orçamento, virão do Fundo de Mobilização do Esporte Olímpico (FMEU), criado em agosto de 2002 com o objetivo de reunir recursos de impostos, contribuições ou doações que seriam aplicados na formação de atletas. Para a ex-atleta do nado sincronizado Camile de Oliveira, de 23 anos, que abandonou o esporte após o Pan-Americano de Santo Domingo (2003), não há mais perspectiva. Das oito atletas que conquistaram o bronze por equipes naquele ano (a primeira medalha do país na categoria), quatro - Camile e outras três do Rio - abandonaram o esporte pois não recebiam qualquer tipo de incentivo. Além disso, treinando no Rio, elas eram obrigadas a estar cada dia em um clube, dependendo da disponibilidade de horários de cada um. Chegavam a treinar em piscinas sem profundidade adequada, mudando a coreografia para não se machucar. Camile cansou do sacrifício. Mas lamenta muito não estar no Pan de 2007. Além de competir na sua cidade, estaria com 25 anos, idade em que o atleta do nado sincronizado atinge o seu auge por se tratar de um esporte muito técnico. Os exemplos não param por aí. No judô, a campeã pan-americana na categoria até 52kg infantil em 1997, Viviane Castro, hoje com 20 anos, era apontada como uma das maiores promessas do esporte no país. Parou de competir no ano passado e hoje se dedica aos estudos para prestar concurso público. Ela confessa que todos os dias pensa na possibilidade de voltar a treinar e competir. Mas o sonho esbarra na realidade. - O judô sempre trouxe muitas medalhas para o país e, mesmo assim, não há investimento. O Rio precisa não só de projetos que atuem muito na base ou no topo. É preciso haver continuidade no trabalho. Enquanto políticos e atletas confabulam sobre as alternativas para o desenvolvimento do esporte na cidade, Vilson continua acordando às 5h30. Indo à escola. Almoçando na pensão. Pegando trem e ônibus. E treinando de baixo de sol forte. Faz tudo isso pelo sonho de disputar uma Olimpíada. Cidade sofre com êxodo de atletas O Rio de Janeiro não assiste só ao desperdício de talentos. Muitos atletas têm deixado a cidade para treinar em outros centros. Os exemplos são muitos na natação, esporte em que o Rio tem - ou, pelo menos, tinha - tradição. Monique Ferreira, que não recebia um centavo do Flamengo, transferiu-se para a Unisanta, em Santos, e hoje tem apartamento, bolsa universitária e um bom salário, além de uma estrutura completa para treinamento. Além dela, os ex-nadadores do Flamengo Rafael Mósca e Fernando Silva foram para o Pinheiros, em São Paulo, e Gabriela Silva, para o Minas Tênis Clube, em Belo Horizonte. A única que permaneceu, Mariana Brochado, não recebe qualquer tipo de ajuda do clube. Em 2004, foi obrigada a pagar do próprio bolso o salário do seu técnico, pois o clube demitiu todos os treinadores após a Olimpíada de Atenas, em agosto. Ela só não deixa a cidade porque, graças a um convênio com o clube, ganhou uma bolsa de estudos da PUC. E ainda possui cinco patrocinadores. No atletismo, a maioria dos atletas da cidade foi treinar no interior de São Paulo. Dos quatro cariocas que estiveram nos Jogos de Atenas, a única que ainda treina no Rio é Geisa Coutinho, especialista nos 400m rasos e revezamentos. Mas ela não recebe auxílio de qualquer clube da cidade. Quando compete, representa a Ulbra, de Porto Alegre (RS). Mesmo com tantos exemplos, o prefeito do Rio, Cesar Maia, acha que não há êxodo. - Ao contrário, há a vinda de atletas. De resto, estes movimentos são da natureza do esporte - respondeu, por e-mail. Para segurar os atletas no Rio, o presidente da Federação de Atletismo da cidade (Farj), Carlos Alberto Lancetta, está fechando convênios com universidades, para oferecer bolsas de estudos aos atletas. Um outro caso que tem dado bons resultados é o investimento de universidades. A Gama Filho tem investido no judô e na luta olímpica. Foi por causa da estrutura que recebe da universidade que Daniela Polzin, a única carioca da Seleção permanente de judô, ficou no Rio. - Existem várias escolas de judô na cidade, mas muitos talentos se perdem no caminho. Se não fosse pela ajuda da minha família, eu já teria parado. Caso eu não consiga me manter na cidade, vou para outro estado. Mas, como carioca, fico triste de ver a cidade organizando uma festa para os atletas de fora comemorarem. Histórias Reais - Do martelo ao Exército O carioca Max William Xavier Santos, de 20 anos, foi o primeiro campeão sul-americano de lançamento de martelo (2002) na categoria menores que o Brasil teve. Mas a sua carreira teve um fim insólito. Em 2004, assim que terminou o Brasileiro juvenil, ele teve cortada a bolsa de R$ 250 que ganhava da Vila Olímpica da Mangueira. Desanimado, alistou-se no Exército. Há um ano e meio, enviou documentos para o Bolsa Atleta, do governo federal. Há dois meses, recebeu uma carta dizendo que em breve ele receberia o cartão para sacar o auxílio. Até agora, nada. Se receber o cartão, ele larga o Exército e volta aos treinos. Fonte: Revista Lance A+ |
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