Semifinal da Copa do Brasil coloca frente a frente Abel Ferreira e Pedro Emanuel em momentos distintos da carreira
Desde que a presença de técnicos portugueses se tornou corriqueira no futebol brasileiro, ninguém aliou títulos à longevidade como Abel Ferreira. Há seis anos no comando do Palmeiras, o maior vencedor da história alviverde, que já colocou o clube na final da Libertadores deste ano, tenta a vaga numa segunda decisão, a da Copa do Brasil. Hoje, às 16h, no Nubank Parque, encontrará na área técnica ao lado um conterrâneo que almeja uma trajetória semelhante. Pedro Emanuel vive, semana a semana, a complicada missão de estabilizar e evoluir um Vasco que ainda dá seus primeiros passos num possível ressurgimento e sonha com a disputa de uma segunda final consecutiva da competição.
As equipes fazem o primeiro jogo da semifinal hoje, e a volta acontece no próximo domingo, dia 8 de novembro, em São Januário.
Ex-defensores no futebol português, Abel e Pedro se enfrentaram 11 vezes como jogadores. Como treinadores, são dois encontros. Um em Portugal, quando o Braga de Abel fez 6 a 0 no Estoril de Pedro, em 2017, e outro já no futebol brasileiro, em agosto, quando o Palmeiras goleou o Vasco por 4 a 1, pelo Brasileirão.
No país, os dois iniciaram seus trabalhos em contextos muito parecidos. Chegaram ao Brasil pouco conhecidos pelos torcedores e com carreiras tímidas em termos de conquistas de torneios importantes pelo mundo. Ainda substituíram medalhões: Vanderlei Luxemburgo, no Palmeiras, e Renato Gaúcho, no Vasco.
Hoje com 47 anos, Abel completou seis anos de clube na última sexta-feira. Chegou ao país em meio à pandemia da Covid-19, em novembro de 2020, e estreou com arquibancadas vazias, com a pressão da torcida limitada ao ambiente virtual e ao contexto interno do clube, presidido à época por Maurício Galiotte.
O alviverde ajustava as contas e era um projeto promissor. Havia sido campeão brasileiro em 2016 e em 2018, além de ter faturado a Copa do Brasil de 2015. Em seus primeiros meses, Abel mostrou que estava destinado a liderá-lo: começou a aplicar um futebol pragmaticamente vertical, de trato rápido com a bola, para conquistar a Libertadores e a Copa do Brasil daquela temporada. Ainda assim, sofreu forte pressão em 2021, apesar de mais um título da Libertadores, quando perdeu as finais da Supercopa, da Recopa, do Paulista, foi o terceiro do Brasileiro 18 pontos atrás do campeão Atlético-MG, e eliminado na Copa do Brasil pelo CRB.
Mesmo hoje, com 11 títulos no currículo, segue navegando por bons e maus momentos, reconstruções de elencos e reinvenções de propostas. A seu favor, conta com uma estrutura de ponta, um projeto sólido e vencedor e uma estabilidade que poucos treinadores têm no país.
Não à toa, o alviverde chega como favorito: o esquema com três zagueiros permite ao Palmeiras se defender bem e produzir um alto volume de jogo, principalmente dos corredores para o meio. Impulsionado pelos 23 gols de Flaco López e pelos 13 de Maurício, soma 105 marcados na temporada e apenas 46 sofridos. Como mandante, perdeu apenas três vezes no ano, nenhuma por mais de um gol de diferença. Hoje, pode ter a volta de Vitor Roque ao time titular.
Promissor e organizado
No Vasco, Pedro Emanuel conquistou a confiança da torcida e da diretoria ao revigorar o futebol cruz-maltino, transformado após a sua chegada e a de reforços como Sosa, Lescano e Colidio. Hoje, o Vasco é uma equipe mais organizada defensivamente, que gosta de trabalhar a bola pelo meio e tem paciência para isso. Consegue agredir bem pelos corredores e tem rápidos gatilhos de transição quando recupera a posse.
Perto de completar quatro meses de clube, o técnico de 51 anos vive o que pode ser a maior chance da carreira: se consolidar como o comandante de um projeto que promete ser ambicioso. A partir da temporada que vem, o Vasco passa a ter a força financeira da Almirante Participações, que adquiriu a SAF do clube.
Para isso, precisa estancar as várias sangrias de um time em construção. O elenco curto e com grande variação de desempenho entre titulares e reservas tem esgotado fisicamente seus principais jogadores num segundo semestre que chegou a ter três competições simultâneas. Os erros técnicos, principalmente defensivos e em grandes partidas, são outro problema que voltou a atormentar o cruz-maltino às vésperas da semifinal. São dez gols sofridos nos últimos cinco jogos. O desempenho ofensivo também não é o ideal: o artilheiro da temporada segue sendo um defensor, o lateral Pumita Rodríguez, autor de nove gols.
Os primeiros meses de trabalho mostram que o treinador tem convicção para defender suas ideias, ainda que os resultados variem. Rodando o elenco, levou o clube da repescagem à semifinal da Sul-Americana, bem como à semifinal de hoje. Essa boa gestão, porém, passou a apresentar deslizes: a equipe ainda não conseguiu deixar a luta contra o rebaixamento no Brasileirão e vem de derrota elástica para o rival Flamengo após o treinador optar por um time misto, o que aumentou a pressão para o jogo de hoje.
Para conquistar um lugar ao sol como o de Abel num futebol brasileiro intenso em cobranças, emoções e competitividade, é preciso transformar convicção em resultados constantemente. Nada melhor para isso, afinal, que sonhar com um Vasco novamente finalista e de volta à Libertadores.
Fonte: Extra