Pedrinho superou depressão no Palmeiras após lesões e reencontra clube em decisão pelo Vasco
Pedrinho, presidente do Vasco, faz desabafo sobre depressão
"Você imagina um cara que é chamado de rei, um cara que tinha um dos maiores salários do Palmeiras... esse cara pode estar com depressão."
A frase acima é de Pedrinho, atual presidente do Vasco e ídolo do clube. Antes de assumir o cargo, o ex-jogador enfrentou uma batalha contra a depressão justamente durante sua passagem pelo Palmeiras, adversário do time vascaíno neste domingo, pela semifinal da Copa do Brasil.
Foi no clube paulista que Pedrinho começou a tratar a doença, com ajuda de profissionais indicados pelo então técnico Vanderlei Luxemburgo. O período, entre 2001 e 2005, foi marcado por dificuldades físicas e emocionais. Em 2001, o jogador sofreu a terceira grave lesão no joelho em um confronto entre Vasco e Palmeiras, desta vez defendendo a equipe alviverde.
A situação afetou profundamente o ex-meia, que chegou a se sentir culpado por não conseguir jogar. Em determinado momento, propôs que o Palmeiras deixasse de pagar seu salário enquanto estivesse afastado. O então presidente do clube, Mustafá Contursi, não aceitou.
A ajuda psicológica veio por indicação de Luxemburgo. O tratamento envolveu a psicóloga Suzy Fleury e o psiquiatra Antônio Guerra. Em uma live nas redes sociais, em 2020, Pedrinho contou que poucas pessoas no clube sabiam da situação que enfrentava.
— O dedão do meu pé tinha um problema de sangue pisado. Eu já tinha o apelido de Podre, Podrinho. Se tivesse que ficar mais três semanas parado para cuidar de sangue pisado, aí mesmo que a imprensa ia acabar comigo.
— Eu estava num clube que devia ter 35 jogadores, mais o staff, todas as pessoas que trabalham com futebol... Ninguém sabia da minha depressão, só os médicos sabiam. Os meus amigos não sabiam.
Vasco e Palmeiras são os clubes que Pedrinho mais defendeu na carreira. Muito ligado ao Vasco, clube em que foi revelado e multicampeão, o jogador também teve uma passagem marcante pela equipe alviverde. Agora, o Palmeiras é o adversário do Vasco, que Pedrinho é presidente, neste domingo, na semifinal da Copa do Brasil.
Baú do EE: Em 2001, Pedrinho, do Palmeiras, fala sobre seu pai
A luta contra a depressão
Em entrevista neste ano ao Globoplay, para a série Sessão de Terapia, Pedrinho revelou detalhes do período mais difícil. O ex-jogador relatou o isolamento, as crises de choro e a dificuldade para entender o que estava acontecendo.
— Depressão, no meu caso específico, ela dominou a minha mente completamente e eu já estava num processo muito ruim, enfornado dentro de um quarto, dormindo no banheiro trancado, mesmo tendo um quarto. Deitado no chão do banheiro e tendo que ir para o treino, chorava até o caminho.
— Eu passava praticamente o dia inteiro chorando, sem saber o que eu tinha e chegava no treino, eu tentava disfarçar, obviamente para que ninguém percebesse. Mas ficava com meu olho muito inchado, eu dava alguns sinais antes de descobrir. E eu não falava pra ninguém porque eu mesmo não sabia o que que eu tinha.
Comentarista Pedrinho dá forte relato sobre depressão que enfrentou quando era jogador
Depois de iniciar o tratamento, Pedrinho passou a compreender a importância da terapia e decidiu falar publicamente sobre saúde mental, especialmente no ambiente do futebol. Para ele, ainda existe dificuldade em reconhecer que jogadores também podem enfrentar problemas psicológicos, independentemente do dinheiro e do sucesso profissional.
— Eu comecei a ver a importância de eu falar sobre isso, ainda mais num ambiente que era o que eu fiz parte muitos anos, que foi o ambiente do futebol que você não poder dividir isso. As pessoas não entendem e não é de maldade. Só que quando você está no auge da doença, você acaba ficando com raiva das pessoas por elas não te compreenderem, acharem que aquilo ali é uma tristeza, é um mimimi, qualquer coisa desse tipo. O jogador ganha bem. Então as pessoas já atrelam à condição financeira.
— Você imagina um cara que é chamado de rei, um cara que tinha um dos maiores salários do Palmeiras... esse cara pode estar com depressão. Então isso para a sociedade era inaceitável, mas o silêncio de você ter que conviver com a doença, ele é tão cruel quanto a própria doença para os meus amigos ou familiares.
Reencontro com o Palmeiras
Com o tratamento e a recuperação física, Pedrinho voltou a jogar em alto nível pelo Palmeiras. Em 2004, viveu sua melhor temporada pelo clube, com 14 gols em 49 partidas. Ao todo, foram 127 jogos e 31 gols com a camisa alviverde.
Depois, foi negociado com o Al-Ittihad, da Arábia Saudita, mas não chegou a atuar pela equipe por questões burocráticas. Voltou ao Brasil para defender o Fluminense, passou pelo Santos e, em 2008, retornou ao Vasco.
O Palmeiras foi o segundo clube que Pedrinho mais defendeu na carreira, atrás apenas do Vasco, onde foi revelado, disputou mais de 200 partidas e marcou 47 gols. Pelo Vasco, conquistou a Libertadores e a Mercosul, além de dois títulos brasileiros.
A trajetória no Palmeiras, porém, teve um significado além do campo e bola. Foi no clube paulista que Pedrinho recebeu ajuda para enfrentar uma doença que, segundo ele, quase tirou sua vida.
— Se perguntarem: "O que você prefere ter cinco lesões no joelho ou a depressão?". Prefiro ter as lesões, porque a depressão quase tirou a minha vida. Quero falar para vocês o seguinte: a vida é maravilhosa. Por causa dessa doença maldita, que vai ser o mal do século, eu perdi três anos da minha vida. Três anos em que eu poderia ter enfrentado minhas lesões, mas de forma diferente — disse, em 2020.
Agora, Pedrinho reencontra o Palmeiras em outro papel. Presidente do Vasco, tenta conquistar seu primeiro título à frente do clube que torce desde criança. O adversário deste domingo, no entanto, também faz parte de uma das histórias mais marcantes de sua trajetória como jogador e da luta que decidiu enfrentar e tornar pública, sendo uma voz importante na conscientização contra a doença.
Fonte: ge