Aniversariante do dia, Zé do Carmo relembra final do Carioca de 1988, com gol de Cocada
Sábado, 22/08/2026 - 18:08
Reações: com emoção e muita risada, Zé do Carmo passa carreira a limpo em quadro do GE


Capitão do Vasco que conquistou o Campeonato Brasileiro de 1989, Zé do Carmo é um daqueles personagens do futebol brasileiro que sempre rendem uma boa conversa. Amigo de Eurico Miranda e companheiro de time de nomes como Romário, Bebeto e Roberto Dinamite, o ex-volante, que chegou à seleção brasileira, sempre tem na ponta da língua uma história curiosa para contar.

Uma das mais famosas (e engraçadas) envolve um dos gols mais antológicos de Zico com a camisa do Flamengo. Marcado em uma cobrança de falta magistral diante do Santa Cruz, no Maracanã, pelo Campeonato Brasileiro de 1987.

Homem da base da barreira do time pernambucano, Zé teria respondido ao goleiro Birigui, que pedia insistentemente para ele olhar para a frente na hora da batida: "E eu vou perder de ver o gol, é?"

Em 1987, Zico faz gol de falta sobre o Santa Cruz


História que o ex-jogador, que completa neste sábado 65 anos, pela primeira vez assume ser apenas folclore. Um desmentido bem-humorado. Bem ao seu estilo.

"Isso aí inventaram, e eu continuei dizendo que era verdade porque dava Ibope. Mas nunca falei isso não".

— Até Zico entrou nessa. Até hoje, quando a gente se encontra, ele tira essa onda: "Zé, quer ver o gol ainda?" A verdade é que a gente estava perdendo já por 2 a 1, com dois gols dele, e estávamos querendo empatar. Aí ele fez o terceiro, um golaço. O Birigui quis adivinhar. Mas eu nunca falei que queria ver o gol, deu nem tempo. Mas como sempre deu Ibope eu dizia: "Foi, foi" — recordou, aos risos.

Golaço, aumento e seleção

Outros dois gols marcaram a carreira de Zé do Carmo. Esses sem pitada de folclore. Mas também nada convencionais.

O primeiro foi marcado pelo ex-volante em 1986, pelo Santa Cruz contra o Atlético-GO, no Serra Dourada, pelo Campeonato Brasileiro. O mais bonito dos poucos que anotou na carreira e que lhe valeu o destaque do "Gol do Fantástico" daquele domingo. De calcanhar, no ar, de primeira.

Gol que valeu até um aumento de salário.

Baú do Moraes


— Eu fiz o gol no domingo e durante a semana o Zé Neves (então presidente do Santa Cruz) me chamou lá na sala de presidência e disse: "Zé, eu não posso te dar uma placa pelo gol do car... que tu marcou lá no Serra Dourada. Mas eu vou te dar um aumento, pode ser?" E eu disse: "Tá muito bem-vindo" - recordou.

Eram outros tempos. Tempos de hiperinflação no País.

"Ele me deu um aumento de 400%. Pra você ter uma ideia de como o dinheiro não valia nada naquela época, quando eu comecei a receber o salário do Santa Cruz, isso só valia 200%. Mas foi melhor que a placa", disse, mais uma vez sem segurar a risada.

E por um momento, Zé do Carmo acreditou que o seu gol, de fato, poderia render uma placa no Serra Dourada.

- Eu joguei com o Celso (ex-zagueiro) e o safado me disse: "Zé, tem uma placa pra tu lá no Serra Dourada". E ai quando eu fui jogar de novo no Serra Dourada saí procurando a placa em todo lugar, mas era tudo mentira. Não tinha p... nenhuma - recorda.



O outro gol marcante na vida de Zé do Carmo foi o seu único com a camisa da seleção brasileira, em um amistoso contra o Peru, no Castelão, em Fortaleza, em maio de 1989. Um mês antes da Copa América, que seria disputada também no País e que terminou com o título do Brasil.

Apesar de ter balançado as redes às vésperas da convocação, Zé do Carmo sabia que dificilmente teria vaga para disputar a competição.

Gol de Zé do Carmo pela seleção brasileira em amistoso contra o Peru em 1986


— Eu estava cobrindo Dunga e Alemão, que eles estavam na Alemanha e na Itália jogando pelos seus clubes. Então eu já sabia que não ia ter brecha nesse sentido (de ser convocado para a Copa América). Eu até pensei em procurar fazer o melhor para colocar uma interrogação, mas eles tinham um vasto currículo na seleção, então por isso que eu não tinha como brigar com eles. Só se eles tivessem uma contusão e não adianta eu ficar secando porque de repente a rebordosa ia para cima de mim —

E qual dos gols foi mais marcante? O de calcanhar pelo Santa Cruz ou o marcado pelo Brasil?

— O de calcanhar, com certeza. Todo mundo só fala desse. Tem gente que nem sabe que eu fiz gol na seleção — responde, sem pestanejar.

Ídolo de Vasco e Santa Cruz

Além de ter sido campeão brasileiro em 1989, Zé do Carmo também conquistou pelo Vasco o título do Campeonato Carioca de 1988 (o último do clube sobre o Flamengo). Final que terminou em pancadaria após a comemoração do gol do atacante Cocada.

— Não dei tapa em ninguém. Só ficava olhando para um lado e para o outro para não levar um murro sem saber de quem foi. E ficava só no grito: "Se vier vai levar porrada". Mas só no grito. No outro dia no Rio de Janeiro não tinha Cocada em lugar nenhum. Os vascaínos compraram todas as cocadas para distribuírem com os rubro-negros — conta Zé do Carmo.

Gol de Cocada para o Vasco sobre o Flamengo em 1988


No Santa Cruz, clube que o revelou, Zé do Carmo também se tornou ídolo, conquistando quatro Campeonatos Pernambucanos, em 1983, 1986, 1993 e 1995.

Hoje, o ex-jogador e atual comentarista, lamenta a situação dos dois clubes onde fez história. O Vasco, na zona de rebaixamento tentando evitar a quinta queda para a Série B. Já o Santa Cruz, atualmente na Série C, chegou a ficar sem divisão nacional em 2024.

— Meu sentimento é de tristeza porque esses foram dois times que eu aprendi a torcer. Então quando eu entrava em campo, era também o meu sentimento de torcedor ali dentro. Mas eu acredito que ambos possam dar a volta. Sabe por quê? Porque os dois têm um dos maiores patrimônios que um clube pode ter, que é o torcedor que nunca abandona — finalizou o aniversariante Zé do Carmo.

Em 1988, Zé do Carmo brinca após quinta vitória consecutiva do Vasco sobre o Flamengo


Ficha como jogador:

  • Clubes na carreira: Santa Cruz, Vasco, Coimbra (Portugal), CRB, Ituano e Uniclinic-CE.

  • Títulos: Campeão brasileiro de 1989, Campeão Carioca (1988), Campeão pernambucano (1983, 1986, 1993 e 1995)

  • Jogos pela seleção brasileira: 3

  • Gol: 1 (Brasil 4x1 Peru, amistoso em 1989)


  • Fonte: ge