Nenê revisita carreira: 'Virei vascaíno e sempre vou agradecer e ser muito grato à torcida e a esse clube'
Terça-feira, 17/03/2026 - 17:27
Nenê fala sobre a briga com Ibrahimovic


Anderson Luiz de Carvalho, o Nenê, não dá qualquer sinal de que vá se aposentar dos gramados. Exemplo de longevidade, o meia foi contratado pelo Botafogo-PB para a 27ª temporada da carreira e ainda tem planos no futebol.

Mesmo com 44 anos, Nenê chegou ao Botafogo-PB com grandes sonhos em 2026 e se espelha em Cristiano Ronaldo para seguir lutando por novos objetivos - profissional desde 2002, o craque português de 41 anos continua jogando pelo Al-Nassr, da Arábia Saudita, também não dá sinais de declínio físico ou técnico e está em busca do milésimo gol da carreira.

– Eu não sabia que eu estava com quase 300 gols. Tem páginas que colocam, que eu tinha colocado antes de eu chegar aqui, às vezes 288, aí uma 289, aí outra 285, aí outra 287. Quem é o meia que fez 300 gols na carreira? São pouquíssimos. Pode contar nos dedos, não só brasileiros. Porque os brasileiros são os que mais fazem gols. É uma coisa que me deixa muito orgulhoso e é um dos motivos para eu estar dando o meu máximo a cada dia – completou.

"Imagina você estar no mesmo nível de um Cristiano Ronaldo da vida, nível que eu falo desses tipos de recorde. Não tem como comparar ao nível de futebol jogado, mas estar junto no quesito longevidade, é uma honra, um orgulho muito grande, isso motiva muito. Mas eu nem penso assim no dia a dia ou no jogo, tem que ser uma coisa natural, que só fique na consciência. Aumentar mais esse ano aqui para o Cristiano não chegar (risos)"
— Nenê, em entrevista exclusiva ao ge

Em entrevista exclusiva ao ge, Nenê explicou as figuras que ainda o inspiram, fez um balanço da vida no futebol e contou resenhas da longa carreira, como o dia em que quase brigou com Ibrahimovic em um treino do PSG. Os bastidores também levaram a uma quase ida ao Corinthians e o lamento por não ter conquistado um título pelo São Paulo.

Fazer história em João Pessoa

Além dos objetivos individuais, Nenê também quer fazer história no próprio Botafogo-PB. Ao aceitar o projeto de Gustavo Félix, dono da SAF do Belo, o jogador se colocou como a principal referência na campanha rumo à Série B.



Ainda que a segunda divisão seja o principal objetivo, o meia sonha com a elite do futebol brasileiro após passagem pelo Juventude. Um desejo ambicioso e bem longe de ser impossível.

– O clube já há muito tempo vem batendo na trave em relação a subir para a Série B. Então, são desafios que eu também gosto e topei esse desafio com todas as outras coisas que eu te disse também, até o lado financeiro também. Eu já vou mais longe, penso em levar o clube para a Série A. Eu sou um cara muito competitivo, nada é impossível no futebol. Eu já aprendi que não dá para me programar em nada, porque eu já estou programando minha despedida já faz anos – disse.

Encarou Ibrahimovic?

Quando o sueco desembarcou em Paris, Nenê já era o grande destaque do PSG. O meio-campista brasileiro chegou em época de "vacas magras", antes de o dinheiro começar a entrar efetivamente. Tanto que as contratações que antecederam a de Ibrahimovic foram de menor apelo, como Lavezzi, Verratti, Thiago Motta e Javier Pastore.

Durante o papo, Nenê lembrou que se estranhou com Ibrahimovic em um dos treinos. A reação dos companheiros foi curiosa, temendo pela saúde do brasileiro, já que o centroavante sueco é faixa preta de taekwondo.



Depois, a polêmica se estendeu para o uso da camisa 10. Nenê revelou que Ibra nunca externou o desejo de vesti-la, embora a imprensa tenha amplificado a "rusga". O meia brincou que o companheiro só assumiu a numeração depois que ele deixou o PSG.

– Falaram que ele queria a minha camisa e eu não deixei. Foi algo que veio de fora, porque ele nunca tinha usado a 10. Ele sempre usou a 9 e a 11 no Milan. O cara agora do time é o Ibra e não é mais o Nenê, mas ele realmente nunca veio falar e não acho que não ia ter problema se falasse. Mas, assim, só pegou a 10 quando eu saí, né? (risos). Sempre fica essa brincadeira. Ah, não, espera aí eu sair e depois você pega, nariga (mais risos) – lembrou.

O brasileiro disputou 112 jogos com a camisa do PSG, tendo marcado 48 gols e distribuído 16 assistências. Ele venceu a Ligue 1 na temporada 2012-13, a primeira do clube parisiense desde os anos 90, por isso ainda é muito lembrado pela torcida francesa.

Proposta do Corinthians? Nenê preferiu o Vasco

Depois de passar pelo PSG, Nenê ainda jogou no Al-Gharafa, do Catar, e no West Ham, da Inglaterra, antes de tomar a decisão de voltar ao Brasil, em 2015. O jogador revelou que teve propostas, mas ficou entre dois clubes: Corinthians e Vasco.

O Timão parecia mais atrativo, já que tinha montado um grande elenco e liderava o Campeonato Brasileiro. Porém, dois pilares da carreira de Nenê apareceram na hora de tomar uma decisão: a fé e o desafio.

– Eu balancei, eu iria para o Corinthians, não conhecia nada do Vasco. Eles estavam em primeiro (no Brasileirão), estavam bem no campeonato. Acho que o Tite até falou uma vez sobre isso. Procuro sempre colocar todas as coisas na balança para tomar uma decisão.

– Deu certo, tanto que acabei o campeonato como craque da galera, o melhor do campeonato eleito pela torcida num time que foi rebaixado. Se eu fosse para o Corinthians, eu ia ter sido mais um jogador só. Eu não ia ter sido marcado na história do Corinthians, por exemplo, e no Vasco eu sou um cara marcado – explicou.



De fato, Nenê ficou marcado com a torcida do Vasco. Ajudou o clube a subir para a primeira divisão duas vezes, conquistou o Campeonato Carioca de maneira invicta em 2016, o último título do Cruz-maltino até hoje e, por muito tempo, foi referência técnica do time. Ele não era, mas se tornou torcedor do clube onde é respeitado.

– Você receber esse carinho, essa recepção, tinha a faixa lá. Isso não tem preço. É uma coisa que poucos caras conseguem, jogando ainda, ter essa admiração, esse respeito. Mas é porque eu sempre respeitei também. Sempre dei a vida dentro de campo e o torcedor do Vasco viu isso. Até isso é um pouquinho de alegria que deu para a gente conseguir. Virei vascaíno e sempre vou agradecer e ser muito grato à torcida e a esse clube.

O jogo citado por Nenê foi no ano passado, quando o Juventude visitou o Vasco em novembro, pelo Campeonato Brasileiro. O camisa 10 teve recepção calorosa dos torcedores, com fotos, vídeos especiais e uma faixa com os dizeres: "Obrigado, Nenê". O meia marcou duas vezes na vitória por 3 a 1 da equipe de Caxias do Sul.

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A chapada do Nenê

O jogador ganhou notoriedade com o Vasco, mas atingiu o imaginário dos mais jovens com os memes. O "vovô garoto" vê a questão com muita naturalidade, uma maneira de se conectar com os próprios jogadores do elenco do Botafogo-PB.

– Eu acho que é uma maneira de me conectar com eles. Eu tenho idade para ser o pai deles, mas sempre manter a cabeça, a mentalidade, jovem. Fico brincando que meu metabolismo é só na idade (44), na carcaça eu estou com uns 30 e poucos.

Um desses "memes" foi a "Chapada do Nenê" em alusão aos gols marcados pelo jogador com chutes curvados, com a parte interna do pé. Popularizado pelo lateral-esquerdo Reinaldo, durante a passagem do meia pelo São Paulo, Nenê acabou eternizado.

Perguntado sobre a "chapada" favorita, Nenê lembrou de algumas da época do PSG e do Vasco, mas acabou escolhendo uma pelo próprio São Paulo. Foi no jogo contra o Vitória, válido pelo Brasileirão de 2018, quando ele balançou as redes com um golaço.

Com grande atuação de Nenê, São Paulo vence o Vitória no Morumbi


"Tem várias chapadas bonitas. A que virou mesmo assim o bordão da "chapada do Nenê" foi no jogo contra o Vitória, o Reinaldo que entregou para a TV. Eu acabei quase dando meio que um lençolzinho. Eu dominei, a bola subiu assim, acabei tirando ele já de primeira, arrumando e dei a chapada lá no Morumbi, foi realmente um gol sensacional, muito bonito mesmo"
— Nenê

Com mais de 1000 jogos na carreira, Nenê segue com vontade de seguir tentando. Apesar dos poucos títulos na carreira, o jogador revela que já conquistou o que queria: o respeito e o carinho do torcedor brasileiro.

– Eu acho que isso é um legado muito bacana. E é isso aí que eu sempre quis obter durante toda a minha carreira. Eu não tenho tantos títulos assim. Eu sempre fui um cara que nunca ganhou muitos títulos. Mas isso daí para mim vale mais que uma taça – finalizou.

Nenê até comentou que tem poucos títulos na carreira, mas, neste domingo, pode conquistar um: o Campeonato Paraibano. Destaque e líder, o meia busca ajudar o Belo a levantar a taça neste sábado, às 16h45. O primeiro jogo da final contra o Sousa terminou com vitória por 2 a 1.

Veja outras frases da entrevista com Nenê

Adaptação no Botafogo-PB

– Você chega e o pessoal fica até meio assim, mas eu sou um cara muito tranquilo, sou um cara brincalhão, então eu já chego brincando, já quebro o clima. Eu falo que sou mais um aqui, venho para ajudar vocês e que sou muito competitivo, não aceito perder. Eu gosto de dar o exemplo no dia a dia, dentro de campo, nos treinamentos. Isso faz a galera baixar a guarda.

– Eu gosto de deixar sempre um ambiente muito legal, muito leve, muito alegre. Tem o pessoal da quinta série, eu sou do lado do pessoal da quinta série. Então, isso aí já vai deixando mais fácil a adaptação. Como sou só eu e minha esposa, meus filhos já estão grandes, cada um tem a sua vida, então, assim, é muito mais fácil também, né? Tem essa parte também, o calor, porque eu estava no frio, mas lá tem uma brisa muito legal em João Pessoa, não é aquela coisa que fica suando parado, então também ajuda.

Existe um segredo para uma carreira tão longa?

– Acho que não é só um. Primeiro de tudo, é a paixão, o amor que eu tenho pelo que eu faço, de você estar em um lugar que você tem aquela paz de que nasceu para fazer aquilo. A disciplina, sono, sem bebida alcoólica, se você não bebe durante vários anos ajuda alimentação. Eu fiquei muito tempo na Europa, eram menos jogos, também nunca te machuquei seriamente, nunca tive nenhum tipo de cirurgia. Quando eu cheguei no Brasil com 34 anos, eu ainda me sentia como se tivesse 20 e poucos. Eu sou muito abençoado.

Adaptação na Europa

– Na época, eu já estava casado, já tinha filho, fui com a família toda para um lugar bacana. Mallorca foi o primeiro clube, a cidade é sensacional, você come muito bem. Se procurar, também sempre vai ter uma loja de produto brasileiro. A língua era fácil, bem parecida com o português. Dei essa sorte de ir para cidades que me ajudaram.

– Você vai para a Rússia, Ucrânia, um frio danado aí, a língua muito difícil, nesses casos é mais complicado. Então, estando numa cidade que parece o clima do Brasil, não faz tanto calor, mas assim, é bonito igual. Foi tranquilo assim para mim, sabe? Como eu tive uma experiência em outros lugares da Europa, então isso me sustentou para ir ficando. Voltar para o Brasil para quê, se eu já tinha acostumado, tanto que eu até voltei para a Espanha ainda.

Carinho da torcida do PSG

– Eu nunca imaginei (o carinho da torcida). O Paris Saint Germain sempre foi um time grande na França. Digamos assim, em termos de comparação, que o momento era parecido com o do São Paulo. O São Paulo, lá na época em que fui, há muito tempo não ganhava título, estavam tendo que reconstruir tudo novo.

– Sempre teve o nome, a estrutura também era muito boa, mas claro, nem em comparação com o que é agora. A ideia deles na nossa época era voltar a disputar uma Champions League e voltar a disputar títulos, passavam por problemas não só financeiros, mas o time mesmo não estava rendendo. Pressão grande, porque lá a torcida é embaçada. E eu gosto dessa parte que eu já te falei do meu desafio.

– Eu gosto dessa parte de, tipo assim, vou conquistar uma coisa que seria muito difícil. Se já tivesse bem, eu ia ser mais um. Cheguei num momento em que o time brigava para não cair e fazia uns 4, 5 anos que não disputava competições Uefa. Logo no primeiro ano, a gente já disputou título, brigando ponto a ponto.

– Fui eleito o melhor do time do campeonato com o (Eden) Hazard, que um ano ficou em primeiro, no outro ano eu ganhei e ficava nessa briga aí. Pessoal gosta de brasileiro lá, porque é um futebol mais físico. Desde o Ronaldinho, o Raí. Esse gosto pelo brasileiro é uma coisa que já me ajudou.

Ida para a Arábia Saudita

– Eles sempre tiveram essa coisa do futebol como um hobby, sabe? Algo mais secundário para eles. Financeiramente, os caras eram muito acima do resto. Eu tive a proposta do Milan, do Schalke, dos próprios times brasileiros, quase que acabei fechando com o Santos na época ainda.

– Eu estava praticamente fechado assim mesmo, mas os times da Europa pagavam menos, do Brasil também, enquanto os caras do Catar, pô, aí dobrava o que ganhava onde eu estava. Na época, foi uma escolha financeira, mas foi uma experiência muito bacana, um lugar legal para se viver. A única coisa é que a competitividade lá era muito baixa. Passaram dois anos e parece que você está sempre jogando amistoso.

Chegada ao Vasco e arrancada

– Foi incrível, esse segundo turno foi incrível. Foi uma coisa surreal assim. Quando eu cheguei, todo mundo já falou que o time já tinha caído em agosto. Me perguntavam: ‘O que você veio fazer aqui?'. Quando acabou o campeonato, eu tive proposta de todos os times grandes, na maioria dos times grandes, inclusive dos rivais, Palmeiras, Flamengo, Atlético, São Paulo, mas acabei ficando no Vasco na Série B.

– Foi uma identificação tão grande com o clube, com os torcedores, que a gente vê isso até hoje. Até hoje, a torcida pede para eu voltar para lá. Eu sou o segundo maior artilheiro do século do Vasco, sendo meia, e um cara que fez mais assistências no século no clube, consegui ajudar o time a subir duas vezes. Mas aí por coisa de problema de salário, que não estava recebendo, o Eurico (Miranda) saiu, teve um monte de problema e eu acabei tendo que sair.

Batalha de Itu

– Eu, por incrível que pareça, estava muito tranquilo. Nós fomos para um hotel lá em Itu, aí dois, três dias antes, ansioso demais, acho que todo mundo estava ansioso. A gente já poderia ter subido faz tempo, acabamos dando uns moles lá. Acho que foi até um pouco disso daí, pois você tem que profetizar uma coisa para antes dela acontecer e às vezes ela acaba acontecendo então.

– Dormi bem e tal. Fui para o jogo e estava lotado de gente, ainda tinha as cores do rival do Vasco. Na hora em que saiu o pênalti, meio que eu já sabia e acabei fazendo o gol. Tomamos uma pressão danada mesmo com um a mais. Quando acabou, saiu um peso mesmo. Imagina o Vasco, dois anos seguidos na Série B, acho que fazia muitos anos que não acontecia isso, todo mundo ia ficar marcado de uma maneira ruim.

O que faltou para ser campeão em 2018?

– Estávamos ali, se não me engano, entre os primeiros, se não estava primeiro. Ficamos em primeiro no Brasileiro um tempão assim. O elenco era curto, a gente acabou não aguentando porque tem que ter dois elencos titulares. O Palmeiras e o Flamengo sempre ganharam por isso, depois chegou outubro, novembro, a gente ficou naquela.

– Realmente não tinha como aguentar 60 jogos jogando no mesmo nível só com os mesmos jogadores. Aí tinha jogadores que tinham machucado, jogadores tinham saído, Militão tinha saído, o Rojas machucou porque o time era certinho, né. Foi um ano muito bom, conseguimos vaga na Libertadores, que também fazia um tempão que já estava brigando para não cair e tal. Mas é uma pena mesmo não ter conseguido manter na briga pelo título.

Fonte: ge