Sá Pinto: 'Adoro São Januário, adoro aquela fachada. Me faz lembrar Portugal e a colônia portuguesa'
Domingo, 22/11/2020 - 13:13
Na semana em que completou um mês de Vasco, o português Ricardo Sá Pinto bateu papo com o Esporte Espetacular. Em pouco mais de 30 dias, o treinador viveu a fundo a beleza e o caos do Rio de Janeiro, cidade que já havia visitado três vezes antes de se tornar morador e pela qual nutre uma velha paixão. Comeu bem, visitou praias turísticas, mas também se deparou com um tiroteio próximo ao CT do Almirante, vizinho da Cidade de Deus.

Antes mesmo de desembarcar em terras cariocas, em 15 de outubro, já conhecia Cristo Redentor, Pão de Açúcar e outras cartões-postais do Rio, mas uma novidade em sua vida mexeu com o coração de Leão de Sá Pinto: São Januário. O treinador acredita que a chegada ao estádio pela rua principal o transporta para Portugal. E, sobre a característica de caldeirão, revela ansiedade em vê-lo pulsar com a torcida vascaína dentro dele.

- Adoro São Januário, adoro aquela fachada. Me faz lembrar Portugal e a colônia portuguesa. É lindíssimo (a fachada), e estou curioso para ver como ficará quando reformularem o estádio. Vai ficar um estádio lindíssimo. A entrada me lembra o estádio do Mônaco, que também tem uma fachada emblemática. É um estádio lindíssimo, e é uma pena que esteja vazio. Estou à espera de ver esse estádio cheio. Cuidado, quando vierem a São Januário vai ser complicado saírem vivos de lá (risos). É uma brincadeira, logicamente, mas será a nossa força.

Se conheceu de perto as belezas naturais do Rio e os encantos do Vasco, Sá Pinto também vivenciou, em pouco tempo, os perigos da cidade. Há poucos dias, um tiroteio próximo ao CT do clube, na Zona Oeste, assustou comissão técnica e jogadores, que tiveram de trocar de campo por receio de uma bala perdida.

O desagradável episódio deu-se na última terça-feira. Ainda assim, Sá Pinto disse que em nenhum momento se sentiu em perigo no Rio de Janeiro, apenas lamentou o fato de situações como estas mancharem a imagem da cidade.

- Sei que tenho que ter alguns cuidados, não só em termos do Covid, mas também em termos de segurança. Estávamos a treinar e houve à volta do CT alguns tiros e algumas intervenções policiais. A certa altura essas balas perdidas podem acontecer, infelizmente, aconteceu aqui. Nós tivemos que ter algum cuidado. Sair de uma zona do CT. Logo na entrada há dois campos, e tivemos que ir para outro lado por uma questão de segurança. Mas nunca nos sentimos inseguros porque a intervenção policial foi boa, não houve nada de especial. Entre nós lá dentro ficou tudo bem.

- Preocupa a todos. A vocês também. Ao povo brasileiro, que me acolheu maravilhosamente. Me preocupa da imagem que possa causar do povo brasileiro. O Rio é uma cidade maravilhosa. Não me senti inseguro em nenhum momento, fico com pena por isso, em manchar o turismo. É mal para todos, principalmente com a economia como está.

Apesar do ocorrido, Sá Pinto, durante a longa entrevista cuja duração ultrapassou uma hora, deixou claro que pretende ficar em São Januário por bastante tempo. Evita projetar futuro ou próximas temporadas e concentra suas forças em livrar o Vasco do perigo no Brasileiro, competição que prioriza. É bem direto, porém, quando questionado se deseja seguir no clube.

- Claramente o interesse é continuar, me sinto muito bem no clube e nessa altura minha preocupação não é o futuro, é o imediato. É querer ajudar o Vasco a sair de uma situação desconfortável para uma situação confortável. Para se fazer um campeonato tranquilo, tentar ir o melhor possível no Brasileirão em termos de classificação e o mais longe possível na Sul-Americana. Claramente a maior preocupação é o Brasileirão pela competitividade que existe. Muitas boas equipes estão lá embaixo, como o Botafogo que é forte. Todos com boas equipes e com história. Vai ser uma luta muito dura, e esta é a minha preocupação a esta altura.



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Balanço do primeiro mês junto ao elenco

- Já tenho o conhecimento quase total do time. Individual e coletivo. Mais individual porque não tinha acesso a todos porque muitos jogaram e outros não jogaram tanto. O comportamento da equipe em relação às minhas expectativas tem sido muito bom no sentido de eles quererem aprender, melhorar e entender o que eu e minha comissão técnica pretendemos para o jogo do Vasco nos diversos momentos. Ou seja, na questão ofensiva, defensiva e na estratégia.

Tenho sentido uma equipe muito disponível, dedicada e focada. Temos tido uma grande contrariedade para passar toda a informação que é o tempo. Muitos jogos, muita situação de Covid-19 infelizmente nos tem acontecido também (foram 14 casos no elenco desde sua chegada). Várias contrariedades não têm nos deixado trabalhar normalmente.

Já percebi que numa competição como o Brasileirão é muito importante que tenhamos um elenco muito equilibrado, porque realmente exige muito fisicamente de uma equipe jogar de três em três dias de forma consecutiva, principalmente quando se está em outras competições. Nós estamos na Sul-Americana. Aqui não se para nem quando as seleções jogam, portanto é muito difícil. Na Europa, para sempre.

Além da paralisação nas Datas Fifa, Sá Pinto lamenta não ter feito pré-temporada

- Também acho que seriam muito importantes aquelas sete ou oito semanas que temos na pré-temporada para preparar a equipe. É muito importante porque depois é praticamente ajustar e recuperar os jogadores jogos após jogos. E tendo duas soluções do mesmo nível para cada posição será sempre mais fácil para se ter sucesso num campeonato tão exigente como o Brasileiro.

No entanto, tenho tido uma boa resposta da parte deles. Logicamente falta muito trabalho. Essa mudança de estrutura tática também requer trabalho, continuidade e repetição. Requer entendimento, inteligência e adaptação dos jogadores a essa estrutura, principalmente em termos defensivos. E em termos ofensivos também, logicamente. Sem lhes tirar a criatividade, que é o que pretendo.

Temos uma equipe que mistura jovens e mais experientes, com muito potencial para crescer, mas estou satisfeito até agora pelo que eles têm me dado e pelo que vamos conseguindo pouco a pouco na equipe.

Enfim, existe muito trabalho a fazer, mas estou muito satisfeito não só com a equipe, mas também com as pessoas que trabalham conosco. Conseguimos inaugurar um CT, que foi importante para dar outra estabilidade em termos de trabalho, temos bons campos para trabalhar e temos a nossa privacidade também. Estamos no caminho.

Já se sente um carioca?

- Sou um grande fã do Brasil, há carioca na minha família, conheço quase todo o Brasil, daqueles sítios (lugares) mais conhecidos, obviamente, turísticos. E gosto muito de vir para cá. É a minha primeira experiência a viver, tenho me sentido muito adaptado, não tenho tido tempo pra conhecer a cidade ainda, mas já estive cá três vezes. Não tenho casa ainda, não tenho carro, a única coisa que preciso ter e não tive é tempo. Ainda estou no hotel. Mas estou completamente adaptado à liga, ao Brasileirão, aquilo que envolve o jogo, do calendário, da exigência e do dia a dia do que é viver aqui.

O explosivo ambiente político provocado pelas eleições atrapalha?

- Todos temos grande preocupação em nos focarmos no trabalho e no dia a dia. Não somos alheios porque sabemos ver notícias e o que se diz. Mas tentamos nos concentrar no que é importante. A essa altura o Vasco precisa ganhar jogos, somar pontos, avançar na tabela de classificação. Já temos com o que nos preocupar, mas logicamente seria se melhor que essas situações se estabilizassem e se definissem. É bom pra todos. Mas temos tentado blindar e a equipe tem feito esse esforço. Do lado eleitoral ainda vai se falar muito, há muito a se resolver. Temos que estar mais focados em nossa tarefa.

O esquema 3-5-2 lhe agradou, e o elenco se adaptou a esse esquema. Pretende seguir com ele?

- Sim. É uma estrutura tática que temos trabalhado e que estamos a utilizar nessa altura. Temos outras. O 4-2-3-1 e o 4-4-2 já minimamente trabalhados e podem ser possibilidades a qualquer altura.

Ainda não sabemos como você procede antes do jogos por não termos as coletivas que aconteciam pré-pandemia. Gosta de esconder o time? Se incomoda quando a escalação vaza?

- Nenhum treinador gosta de ver sua equipe na imprensa, assim já não se consegue ter estratégia, esconder nada. Eu também não gosto, mas é impossível muitas vezes. Com toda essa informação, percebemos que às vezes não se consegue, nesse lado estratégico, esconder a equipe. Eu gostava sempre de esconder. Utilizar às vezes algumas estratégias em relação a isso. Às vezes funciona, outras não. Todo treinador usa suas estratégias. Hoje em dia também percebemos no futebol global que no acesso à informação, o que se estuda sobre o adversário, os softwares que se usa, de scouts, não há segredos.

Aposta na continuidade dos sistemas e na repetição do time

- Quem faz muita mudança acredito que faz mais no apoio ao jogo individual e não no coletivo. E não vai ter sucesso no meu ponto de vista. Eu acredito muito no trabalho e na repetição e não na mudança de sistemas a todo momento e também não na alteração de jogadores a toda hora, a todo momento. Acredito numa alteração por circunstância.

-Tenho três critérios e deixo isso claro aos jogadores. O primeiro tem a ver com rendimento em treinos, o segundo a rendimento nos jogos e o terceiro a estratégias de cada jogo. Acredito no trabalho, na repetição e na consolidação. E não em acordar hoje e escolher um esquema pra enfrentar esse adversário, ou treinar a semana toda com um time e mudar dois jogadores no dia do jogo. Sou religioso, católico praticante, mas não acredito em milagre (risos).

Como avalia a dupla Cano e Benítez?

- O Cano é claramente um finalizador, claramente também dentro daqueles jogadores que eu acho que são os melhores da nossa equipe e que eu acho que devem jogar estando em boa forma. Uma das minhas mudanças do sistema tático tem a ver muito com as características dos jogadores e de tirar o melhor de cada um. Isso não quer dizer que o Cano não possa jogar em um 4-4-2 logicamente, mas o que eu acho, em termos ofensivos, que pra ele é melhor neste sistema. E, para mim, é melhor estar ofensivamente mais frescos para estarmos em zona de finalização. Não é jogador de pressão, de roubar a bola, mas pode fazer aqui ou ali e levar o adversário ao erro, mas não é a sua característica. Ele é um jogador de apoio frontal, combinado e área, não é de fazer a diagonal, nós sabemos. Portanto temos que ajudar nossos jogadores a tirar o melhor rendimento deles e está é a minha preocupação a esta altura.

O Beni também esteve parado e esta à procura da melhor forma pra poder durar os 90 minutos no ritmo e na intensidade que eu quero. Porque na minha intensidade os meus jogadores que jogam nos corredores têm que ser capazes de ligar os dois lados no 4-2-3-1, 4-4-2 ou mesmo no 3-4-3. Têm de ser capazes de chegar, de preparar, criar o jogo e finalizar.

Como também quando não temos a bola, estar inteiro para reagir, não faltar perna e também reorganizar com a equipe e defender. Claro que eles ainda não são capazes de fazer os 90 minutos, e não é porque não queiram, têm sido dedicados, mas percebe-se claramente que, fisicamente, ainda falta para a equipe chegar à intensidade que eu quero e no nível que eu quero.

Por isso eu digo que é importante ter semanas de trabalho para ganhar condição física e na questão fisiológica. Não quero que façam quatro ou cinco ataques, quero que façam 10. E que defendam do mesmo jeito. Quando se fala de intensidade é isso, é o número de repetição que eu quero que eles façam mais vezes. Isso requer no processo ofensivo e defensivo. Claro que, para mim, é difícil, muitas vezes posso segurar comportamentos, mas não dá pra mudar características. O mais difícil é tornar um jogador que não tem proposta defensiva e fazê-lo começar a defender muito.

Vasco melhorando na questão da profundidade

- Profundidade é algo que faltava pra nossa equipe, chegar com mais gente na área de finalização, com mais pessoas para finalizar e criar mais na parte final do campo. Mas se constrói de trás pra frente. Uma das minhas grandes preocupações era que a equipe não se expusesse tanto defensivamente, estamos sempre mais perto de fazer um gol do que sofrer. Acho que no processo defensivo estamos no caminho certo, mas ainda conseguimos disfarçar algumas coisas neste sistema que nós vimos porque tem muita gente. Às vezes em uma falha ou outra termos muita gente permite um ajudar ao outro, e isso ainda vamos resolver. Em nível tático individual também, inter setorial e ofensivamente precisamos trabalhar muito porque não temos jogadores muito rápidos ou de profundidade entre os nossos mais talentosos.

Temos meninos com talento e com esta capacidade, como é o caso do Vinícius, que é muito rápido, mas está no processo de crescimento, tem que tomar melhores decisões e ainda não é tão regular. Há outros que também querem.



Fonte: ge