Julio Brant fala em trazer para o Vasco, de forma imediata, 'recursos na ordem de R$ 70 milhões a R$ 100 milhões'
Quarta-feira, 04/11/2020 - 05:27

Julio Brant, ao tentar a presidência do Vasco pela terceira vez consecutiva, depois de dois mandatos seguidos como conselheiro, não pode mais ser considerado um "paraquedista" na política do clube, como Eurico Miranda gostava de se referir ao adversário. Após a derrota na eleição de 2014 e a reviravolta às vésperas do pleito no Conselho Deliberativo de 2018, o executivo de 43 anos se coloca mais uma vez à disposição do sócio vascaíno.

Ele é o terceiro dos cinco candidatos a responder às perguntas de O GLOBO sobre os maiores desafios no horizonte do Cruz-maltino: gerar receitas, reduzir as despesas, crescer estruturalmente, administrar os problemas a curto prazo e, principalmente, voltar a ter um futebol vencedor. Para todos que pretendem ocupar a cadeira mais alta da Colina, mais importante do que saber o que se pretende fazer, é como fazer.

Desde 2014, conta com o apoio de ex-jogadores e ídolos do Vasco: Edmundo, Pedrinho e Felipe. O último é certo de participar diretamente da gestão, em caso de vitória. Brant afirma que o suporte dos três vem acompanhado não apenas de conhecimento do clube, mas também de formação para trazer soluções para o futebol. O candidato também aposta na força de um conselho consultivo e na parceria com a empresa espanhola Media Pro para a gestão e a geração de novas receitas.

O cabeça da "Sempre Vasco" chega para a disputa com o que chama de "chapa pura", sem acordos com outros grandes grupos políticos. No último triênio, viu o afastamento de alguns aliados - parte deles se aproximou da gestão de Alexandre Campello, outra leva optou por seguir caminho próprio na política do Vasco e tem em Jorge Salgado o candidato para a eleição marcada para o dia 7.

Como melhorar a arrecadação do clube?

O Vasco precisa de uma gestão moderna e profissional. O Vasco não pode faturar R$ 200 milhões por ano, enquanto que o rival fatura R$ 1 bilhão, só como exemplo. Nos últimos três anos, a receita do Vasco foi praticamente igual a de Botafogo e Fluminense. Nossa torcida é, no mínimo, seis vezes maior que a deles. O nosso planejamento para o triênio 2021/2023 já foi ajustado para o novo cenário da pandemia. Afinal, trabalhamos há sete anos neste projeto. Quando notamos que a pandemia iria mudar as premissas do negócio, fomos à Europa e trouxemos um parceiro - o maior grupo de mídia e inovação da Europa, a Media Pro, líder em várias frentes na América Latina e na Europa. Barcelona, Real Madrid, a La Liga, diversos clubes europeus, a Liga dos Campeões, são algum desses clientes da Media Pro. Trouxemos essa empresa exatamente para nos auxiliar no desenvolvimento de novas propriedades. Ou seja, novas formas de receita para o Vasco. Formas essas que são as mais valorizadas e as mais bem pagas pelo mercado publicitário. O que os clubes europeus estão fazendo hoje é exatamente o que nós estamos propondo a fazer no Vasco a partir do ano que vem.

O Vasco não gerou lucro como mandante no ano passado. Vendeu mando de campo por menos de R$ 1 milhão para um jogo que rendeu mais de R$ 5,5 milhões em bilheteria. Praticamente não jogou no Maracanã. Acreditamos em pelo menos R$ 10 milhões a mais de lucro de "matchday" (dia de jogo) assim que o público retornar aos estádios. A receita de "matchday" envolve não só a bilheteria, mas também toda a experiência do torcedor, bares e merchandising, por exemplo.

A receita com material esportivo no ano passado foi negativa, o Vasco pagou para usar o uniforme do antigo fornecedor. Isso não existe! Uma demanda reprimida não atendida enorme. Temos diversas iniciativas (marketplace, novas franquias, super app, etc) que podem fazer com que o Vasco fature não menos que R$ 15 milhões com material esportivo, inclusive desintermediando parte dessa cadeia. O Vasco tem que ficar com a maior fatia da receita total, ele é o dono da marca, este negócio só existe graças ao Vasco.

O programa de sócios, nosso grande orgulho, o maior do Brasil, só cresceu devido a um movimento da torcida, de fora pra dentro. A verdade é que o programa hoje oferece poucos benefícios, quem está lá está pelo Vasco, mas a contrapartida do clube precisa ser maior. Temos capacidade de oferecer muito mais aos sócios, e com isso aumentar a arrecadação. Sermos mais inclusivos, pois temos diversas iniciativas para alavancar o programa de sócios, que podem aumentar de forma considerável esse faturamento, que hoje já é muito relevante para o clube.

O futebol é um negócio onde o retorno sobre o investimento acontece de forma mais rápida. Montando um time competitivo, sendo preciso nas contratações, melhorando o desempenho esportivo, a receita com premiações, bilheteria e licenciamento aumenta. Isso nos permitirá não só pagar as dívidas, mas também investir em um time cada vez mais competitivo. Isso é um círculo virtuoso, é exponencial!

Como diminuir/administrar a dívida?

O Vasco precisa de uma gestão capaz de trazer transparência e credibilidade para o dia a dia do clube. A dívida do Vasco hoje é de cerca de R$ 630 milhões. De acordo com os dados do balanço, o Vasco precisa de R$ 250 milhões de capital de giro, uma parcela muito grande da dívida é de curtíssimo prazo.

A dívida pode ser dividida em quatro grandes blocos: fiscal, trabalhista, cível e bancos. O Vasco tem R$ 270 milhões em dívidas fiscais. Mais de R$ 200 milhões desse valor está no Profut e é público que o Vasco deixou de pagar o Profut e, com isso, o clube passou a correr o risco de ser excluído do programa, o que seria catastrófico para as finanças. Estamos estruturando uma operação que viabilize ao Vasco renegociar essa dívida fiscal, fazer um novo parcelamento, incluindo também outros débitos, com descontos sobre parte dos juros, com melhor prazo de pagamento para aliviar o fluxo de curto prazo e melhorar a geração de caixa. Através da captação de recursos que expliquei a pouco, vamos renegociar as dívidas cíveis e trabalhistas com uma redução significativa em relação ao valor atual, pagando mais rápido e limpando o balanço do clube.

O Vasco fechou 2019, por exemplo, devendo R$ 123 milhões a bancos, com um custo financeiro altíssimo. Isso é fruto da falta de credibilidade que falamos. Ano passado o Vasco pagou mais de R$ 20 milhões de juros! Uma dívida caríssima, que vamos renegociar também. Nosso principal objetivo é tornar o Vasco novamente um clube que seja visto por todos (bancos, atletas, profissionais, parceiros) como um clube sério, viável, entregando resultado e com isso resgatando credibilidade.

Quais são seus planos para a infraestrutura (São Januário, CT...) do clube?

Fui o primeiro candidato a propor, em 2014, um planejamento sério na área de patrimônio e de estrutura. Trouxe a "Tecnoplano", uma das maiores empresas de engenharia da europa para ser nossa parceira desenvolver tanto o projeto de CT, quanto o projeto de São Januário. É bom lembrar que a Tecnoplano é a responsável pelo atual projeto do CT.

Colocamos à disposição do sócio, desde 2014 e 2017, os projetos de São Januário e do centro de treinamento porque sempre entendemos que sem estrutura é impossível se construir um time campeão e vencedor nos dias de hoje. Num passado isso até era viável, nas décadas 1980 e 1990. Mas nos dias de hoje é impossível fazer um trabalho competente, um trabalho de fato campeão, que é entrar em campo para ganhar os títulos que o Vasco tem, pelo seu tamanho, a obrigação de conquistar.

Colocamos duas fundamentais premissas para esses projetos: a primeira, a viabilidade econômica. O vascaíno não aguenta mais maquetes e projetos que ficam no papel. A segunda, o projeto precisa estar contido dentro dos maiores e mais rigorosos padrões técnicos do mundo de excelência e qualidade.

Além disso, é preciso ver qual é o melhor projeto dentre os apresentados para a realidade vascaína, que seja capaz de combinar um aumento de receitas recorrentes no dia de jogos, com o programa de sócios e o ganho esportivo. Temos a certeza que a torcida vascaína pode ser uma das três maiores ocupações médias no novo estádio. Contudo, isto será possível, apenas, se o entorno de São Januário estiver preparado para suportar. Neste caso, precisamos estreitar a relação com o Poder Público para a revitalização da região, além da melhoria dos acessos e da infraestrutura local.

Por fim, é fundamental frisar que São Januário continuará sendo um estádio raiz. Nossa casa, com nosso jeito de torcer. Teremos espaço com ingressos populares para garantir que todos os torcedores vascaínos de qualquer padrão tenham acesso à nossa casa. Além disso, vamos trazer o vascaíno para ajudar a decidir qual é o melhor projeto, afinal, é ele quem vai usar o estádio. É nosso compromisso colocar o vascaíno, seja ele sócio ou torcedor, no centro do processo.

Como melhorar o desempenho do futebol?

Temos o privilégio de contar com três dos maiores ídolos em nosso projeto: Edmundo, Pedrinho e Felipe. Todos eles foram convidados não apenas por terem marcado a história do Vasco, mas também porque se capacitaram e se qualificaram. Juntar a história dos ídolos com o conhecimento de Vasco, trazendo o que há de mais moderno no futebol, é um dos nossos principais diferenciais.

Mas, a primeira coisa que precisamos é ser transparente com o torcedor. Vamos cumprir com as obrigações com os profissionais do futebol para resgatar a credibilidade no mercado e nosso DNA de Vasco. Temos em nosso DNA títulos, recordes e artilharias. Com a nossa realidade financeira, não tem margem para erro, afinal grandes investimentos não são garantia de títulos. O que faz um time competitivo e que dispute títulos é o uso correto dos recursos disponíveis. Isso sabemos fazer.

Teremos um Comitê Gestor de Futebol que tem como objetivo formar um time competitivo que vai lutar por títulos através de uma gestão moderna e profissional. O Felipe será o nosso diretor técnico de desenvolvimento e futebol. Ele será responsável pela transição dos atletas da base até a estruturação do Departamento de Futebol, que vai estar alinhado com o modelo de jogo do Vasco. Modelo este que vai refletir o DNA e os valores do Vasco: um time com vocação ofensiva, com jogadores oriundos da base, mesclado com jogadores que serão captados através da nossa análise de mercado, que será capaz de encontrar jogadores talentosos, com potencial e ótimas oportunidades de mercado. Vamos parar de comemorar empates ou se contentar com meio da tabelas de classificação.

Qual é a prioridade nos primeiros 100 dias de gestão?

Como já disse, o Vasco precisa de um gestão moderna, profissional e transparente e serão nestes 100 primeiros dias que iremos colocar em prática o planejamento estratégico que estamos estruturando e melhorando desde 2014.

Iremos atuar em duas frentes. A primeira é a reestruturação operacional, onde mapearemos todas as deficiências dos processos do Vasco, identificando o que não está funcionando, resolvendo gargalos, melhorando a performance dos departamentos, capacitando pessoas e dando condições de trabalho para os funcionários atenderem com excelência os desejos da nossa torcida, sócios e parceiros do mercado. Aqui, fica o nosso compromisso de melhorar o que é bom no Vasco porque vamos dar melhores condições estruturais e operacionais e o que não funciona vamos identificar a origem do problema e resolver. Isto é buscar a excelência! Quem fala em caça às bruxas não é gestor.

A segunda é a reestruturação financeira, onde, nos primeiros 100 dias, analisaremos minuciosamente todas as despesas. Sejam elas imediatas ou futuras, bem como os contratos em vigor, para comparar com os preços do mercado, visando o equilíbrio financeiro e a preservação do nosso patrimônio. Assim, iremos criar as condições necessárias para, imediatamente, trazer para o Vasco recursos na ordem, de R$ 70 milhões a R$ 100 milhões, através de um fundo de direitos creditórios. Isso será pioneiro no mercado. Parte desses recursos serão para capital de giro e parte para investir diretamente no futebol.



Fonte: O Globo Online