Instituição onde Eurico fez trabalho voluntário como fisioterapeuta há quase 50 anos ainda existe e passa por dificuldades

Sexta-feira, 27/03/2015 - 10:42
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As mãos que hoje assinam contratos, ditam os rumos do Vasco e, por vezes, apontam contra adversários, já foram as mesmas que, um dia, salvaram e ajudaram a saúde do próximo. Poucos sabem, mas antes de se tornar o famoso e polêmico dirigente do futebol brasileiro, Eurico Miranda teve a fisioterapia como profissão.

Cheio de sonhos e decidido a seguir o ramo da medicina depois que seu irmão mais novo, José Alberto, quase ficou cego após sofrer um grave acidente e bater com a cabeça, Eurico escolheu ser fisioterapeuta na década de 60, quando tinha 22 anos. Formou-se na ABBR (Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação) e em 1969 trabalhou no "Clube do Otimismo", centro filantrópico fundando em 1958, situado no bairro do Méier, na Zona Norte do Rio de Janeiro, voltado para o trabalho voluntário e que atende deficientes físicos mais necessitados.

Passados 46 anos, o UOL Esporte visitou o local, ainda em funcionamento na rua Hermengarda. Com uma secretaria logo na entrada, a reportagem foi recebida com espanto após a informação de que o ilustre cartola já deu sua contribuição por lá.

"Eurico Miranda trabalhou aqui?!? Como fisioterapeuta?!? Meu Deus! Se contassem por um acaso acharia que era mentira (risos)!", diverte-se Rosely Gomes, psicóloga do local.

A surpresa tem explicação. Além do pouco tempo de serviços prestados por Eurico no local e dos longos anos passados, há dificuldade no acesso a registros de documentos antigos. A rotatividade de funcionários desde então também contribui para que não surja alguém a se lembrar de Eurico.

Conformados com a veracidade da história, eles tentaram imaginar o fisioterapeuta Eurico.

"Olha, é difícil de imaginar, mas é muito legal saber que ele trabalhou aqui", declarou a assistente social Rosane Aguiar.

Situação da instituição é precária

O local que simbolizou uma passagem importante na vida do presidente do Vasco, atualmente não vive seus melhores dias. Sobrevivendo de doações, apoios e parcerias, o Clube do Otimismo já chegou a fechar por falta de recursos. Em 2010, porém, Sidney de Oliveira assumiu a presidência, reabriu as portas e agora tenta levantar o patrimônio.

A instituição conta com serviços de fisioterapia, psicologia, fonoaudiologia, psicopedagogia, serviço social e arte terapia, além de aulas de dança e futsal, na quadra que fica nos fundos da casa.

As instalações, porém, carecem de uma infraestrutura mais moderna. A sala dos fisioterapeutas ainda é a mesma da época de Eurico Miranda e os profissionais de todas as áreas atendem de forma voluntária (sem remuneração), duas vezes por semana.

Antigas dívidas têm sufocado o combalido cofre da instituição, fato que motiva Sidney a comparecer com certa frequência ao Tribunal de Justiça, onde, inclusive, alega já ter cruzado com o cartola algumas vezes sem saber, até então, o detalhe em comum que os dois tinham.

"Seria legal se ele (Eurico) pudesse ajudar o Clube do Otimismo de alguma forma, talvez doando uma camisa do Vasco autografada para que pudéssemos leiloar. Nós vivemos de recursos de terceiros, mas muita gente acabou morrendo. Recebemos R$ 1.200 do João Roberto Marinho (vice-presidente da Organizações Globo) a cada três meses. É uma batalha muito grande para pagarmos água, luz, os funcionários... É uma luta para não deixar o clube morrer", destaca Sidney.

O presidente do local faz até um apelo à presidente Dilma Roussef:

"É uma falta de justiça da presidente perdoar dívidas dos países africanos (mais de 900 milhões de dólares em 2013) enquanto as santas casas estão ao Deus dará, as instituições que ajudam as pessoas estão deficitárias. Poderíamos estar oferecendo um serviço de melhor qualidade, mas todos os problemas e questão fiscais impedem".

Eurico Miranda se formou como fisioterapeuta em 1970 e acabou desistindo da profissão pela dificuldade na época que se tinha para exercê-la, diferentemente de hoje em dia, onde é muito mais reconhecida e valorizada. Poucos anos depois, ele ingressou na faculdade de Direito, onde também se formou, dividindo seu tempo com a administração da panificadora deixada por seu pai e a caminhada política no Vasco.

Veja abaixo o discurso de formatura do dirigente como fisioterapeuta:

"Minha saudação teria forçosamente que abordar a situação nacional, porém em atenção a vós em virtude do momento político anormal em que vivemos, preferi deixar de fazê-lo.

Quem somos nós? O que fazemos nós? São perguntas que tenho a certeza a maioria dos presentes tem vontade de fazer:

Reabilitação é a terceira fase da Medicina Moderna, que compreende um sistema de tratamento global e dinâmico, que envolve processos físicos, psicológicos, sociais, educacionais e econômicos, visando colocar o indivíduo o mais próximo possível das condições que tinha antes da enfermidade de que padece ou padecem.

A vila do deficitário, seus status social e econômico, assim como o trato que tem recebido desse a aparição do homem na superfície da Terra, tem variado de acordo com as atitudes sociais dos povos e seus graus de cultura.

Os incapacitados físicos foram pessoas separadas do grupo social durante séculos, em certas ocasiões temidos, em outras compadecidos, mas sempre incompreendidos. A sociedade tem sido lenta em reconhecer as necessidades dos incapacitados e em procurar remediá-las.

As antigas seções de fisioterapia anexas às clínicas de ortopedia devem ser consideradas como as sementes da reabilitação dos deficientes físicos. Em 1954 um grupo de idealistas resolveu fundar a Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR). Esta associação foi organizada com finalidade de recuperar e reabilitar os deficientes físicos.

Uma equipe de reabilitação é constituída de elementos os mais variados possíveis, mas todos eles de alto gabarito. No Brasil, era possível a obtenção de alguns desses elementos (médicos, psicólogos, assistentes sociais, massagistas, enfermeiros, etc). Outros, entretanto, eram definitivamente desconhecidos, como os fisioterapeutas e os terapeutas ocupacionais, por não existirem escolas de formação no Brasil. Os poucos profissionais existentes eram improvisados ou estrangeiros emigrados e nem sempre de boa formação técnica.

Assim sendo esse grupo de idealistas resolveu fundar a escola de reabilitação do Rio de Janeiro, para a formação desses profissionais – fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais – que não só dotariam do Centro de Reabilitação da ABBR de pessoal eminentemente adestrado, bem como supririam uma lacuna no Ensino Superior do Brasil.

Colegas, orgulhemo-nos de nossa profissão. Haverá sensação mais bela, mais realizadora, mais completa do que haver dado condições a uma criatura de andar ou voltar a andar, de falar ou voltar a falar quando ela pensava que não mais andaria ou falaria.

Um agradecimento pessoal, que me perdoem os meus colegas, ao Clube Ginástico Português, por facilitar a realização desta festa inesquecível, esta casa à qual tenho a honra de pertencer, orgulho de uma raça, a minha raça, a raça portuguesa.

Muito obrigado".


Crédito: Livro "Eurico Miranda - Todos contra ele", de Sérgio Frias

Fonte: UOL