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NETVASCO - 13/01/2007 - 07:07 - Confira a série de reportagens do Lance sobre a FERJ

Confira abaixo a série de reportagens do Lance sobre a FERJ. O capítulo 4, publicado na última sexta-feira (12/01), pode ser acessado aqui.

Clique aqui para acessar as imagens das páginas do diário.

9/11

A partir de hoje, dia em que a 4ª Câmara Cível (segunda instância) dará a sua decisão sobre o processo de evasão de renda que corre desde 2004, podendo até destituir toda a diretoria, o LANCE! publica série de cinco reportagens sobre a Federação de Futebol do Rio de Janeiro (Ferj). Os repórteres Carlos Monteiro e Vicente Seda tiveram acesso aos relatórios sigilosos das investigações da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas e de Inquéritos Especiais (Draco/IE). Nas mais de duas mil páginas que compõem os seis volumes do documento há depoimentos estarrecedores, como o do mecânico e cambista assumido que comprovou que os ingressos falsos são derramados entre os torcedores pelos próprios bilheteiros do Maracanã. Apesar das fortes evidências de crimes, o processo movido pelo Ministério Público ainda tramita na Justiça.

Em 2004, a Draco, a pedido do Ministério Público Estadual, instaurou inquérito policial 021/2004 para apurar denúncias de evasão de renda, venda de ingressos falsos e ação de cambistas. Ao terminar o primeiro volume das investigações, o delegado Ricardo Codeceira, responsável pelo caso, chegou à seguinte conclusão: – As condutas ilícitas investigadas, em princípio foram tipificadas pela autoridade policial como quadrilha, falsificação de documento e estelionato. Constam dos autos dez laudos de exames periciais realizados em ingressos apreendidos em poder de cambistas que atuavam nas proximidades do Maracanã.

Após a análise dos dez laudos, produzidos pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), a Draco verificou que a renda apurada não é contabilizada nem depositada em conta corrente; que os boletins financeiros não têm comprovação legal; que há diferença entre a contagem manual dos ingressos e a feita pelas catracas eletrônicas; que ingressos foram adulterados para seus preços serem majorados; e que não há esquema de segurança no transporte do dinheiro e dos ingressos.

Para levar adiante as investigações e colher todo o material para comprovar as irregularidades, as autoridades policiais ouviram cambistas, torcedores, funcionários, representantes dos clubes e da Ferj. O depoimento espontâneo do mecânico Mário Macedo de Moura Júnior é estarrecedor e explica bem como age a quadrilha responsável pelo derramamento de ingressos falsos.

Cambista assumido, ele foi preso no dia 4 de abril de 2004, perto da Bilheteria 5 do Maracanã, e solto no dia 7 do mesmo mês. Após exame feito pela BWA, empresa que fabricava os bilhetes, foi verificado que os ingressos encontrados com Mário eram falsos. Segundo o mecânico, os ingressos apreendidos com outros cambistas também foram classificados como falsos, após periciados. O fato causou revolta entre os cambistas presos, já que todos eles garantiam tê-los adquirido na bilheteria 5.

Ferj pedirá hoje anulação da sentença

Segundo o advogado da Ferj Bruno Gutman a sentença da juíza Márcia Cunha está calcada em um laudo do ICCE que a Ferj contesta na Justiça. Ele afirma que não tem conhecimento dos relatórios da Draco e pedirá hoje a anulação da sentença da 7ª Vara Empresarial até que haja uma posição da Justiça sobre o laudo do ICCE.

– O relatório da Draco não me diz respeito. Deve haver audiência em fevereiro sobre o laudo e a perícia já desconstituiu alguns pontos do documento. Esta sentença não poderia ser dada antes do laudo ser apreciado.

Cambista delata todo o esquema

Depoimento de Mário Macedo de Moura Júnior (mecânico e cambista) à Draco


“Vendemos ingressos no Maracanã faz algum tempo e nunca houve venda de falsos. Inclusive no dia de Flu x Vasco, pelo Carioca de 2004, decisão da Taça Rio, nenhum ingresso foi rejeitado em qualquer catraca eletrônica. Se no dia daquele jogo ingressos falsos foram vendidos pelos cambistas, como afirmaram as autoridades, deveria ter ocorrido recusa de algum ingresso em roleta do Maracanã.

(...) Na maioria das vezes compro os ingressos, para revender, na Bilheteria 5, com um bilheteiro conhecido por Bigode. Às vezes, compro de outro bilheteiro chamado de Coroa (...) No Vasco x Flamengo, final do Estadual, deixei de vender nove ingressos e utilizei outros dois para entrar no estádio, por uma das roletas, que não os recusou. Os nove ingressos que deixei de vender e também os outros dois que passaram e foram danificados pelas catracas apresentei à polícia para apreensão e realização de perícia, que os considerou falsos. Essa falsificação só pode estar sendo feita com a conivência de alguém dentro do Maracanã.

Por que os ingressos que utilizei para entrar não foram recusados pelas roletas? (...) Há pessoas de clubes que vendem ingressos mais baratos para cambistas e torcedores. No Vasco, quem vende é Gustavo (ex-presidente da Força Jovem). Ele vende esses ingressos na rampa do metrô, onde fica a torcida do Vasco, duas horas antes do jogo.

Ele fica com um saco cheio e vende lotes lotes de cem ingressos, cujo total acredito ser de alguns milhares. Gustavo pega os ingressos com o presidente do clube. No Fla, há um homem branco, alto, forte, de cabelo preto, que não sei o nome nem apelido. Ele vende os ingressos por preço inferior para torcedor, mas não vende para cambista. Fica na Estátua do Bellini.

Acredito que pega os ingressos com o presidente do clube. No Flu, quem vende é Pará, chefe da Força Flu, também na rampa do Metrô. Pega os ingressos com o presidente do clube. No Botafogo, quem vende é um homem branco, forte, de altura mediana, cujo nome não sei. Ele também pega bilhetes com o presidente do clube. (...) Eu assumo minha condição de cambista, mas não sou falsificador nem vendedor de ingresso falso.”

Diretoria no cadafalso

O julgamento que acontecerá hoje, às 12h, na 4ª Câmara Cível, é relativo a recursos da ação originária da 7ª Vara Empresarial (número 2004.001.057730-7), por infrações ao Estatuto do Torcedor. Este processo chegou a afastar toda a diretoria da Federação em março de 2006, o que poderá se repetir agora.

Na ocasião, o atual vice geral e jurídico da entidade, Luís Guilherme Gutman, assumiu a presidência interinamente, eleito por assembléia de clubes (na época não fazia parte da diretoria). O MP chegou a nomear um interventor, mas a Ferj conseguiu cassar a medida.

O que será avaliado hoje é o recurso da Ferj, em segunda instância, que contesta a sentença proferida a juíza Márcia Cunha. A diretoria da Ferj atua, hoje, sob força de efeito suspensivo. Quem fará a defesa da entidade é o advogado Bruno Gutman, filho de Luís Guilherme.

O responsável pela ação no MP é o promotor Rodrigo Terra, da área de defesa do consumidor.

A sessão terá voto de três desembargadores. Um deles, Sidney Hartung, é o relator do caso e entregou parecer, que permanece em sigilo. Os outros dois votarão após o pronunciamento das partes.

'Ferj impede controle de ingressos'

Mas não foram apenas os torcedores e cambistas que bateram forte no trabalho da Suderj e da Federação, durante seus depoimentos à Draco. Flávio Pereira, coordenador de arrecadação e fiscalização do Flamengo, revela que três funcionários do clube foram impedidos por Rubens Lopes, presidente da Federação, de fiscalizar, conferir os ingressos e a distribuição dos mesmos para os bilheteiros, e que estes fiscais também não poderiam acompanhar o trabalho realizado na sala de arrecadação. Segundo a diretoria rubro-negra, isso fere o Estatuto do Torcedor.

Tanto que o clube enviou uma petição à Justiça pedindo a destituição dos dirigentes da Federação do Rio. Em seu depoimento à Draco, Flávio Pereira atesta que não apenas o Flamengo como todos os outros clubes são impedidos pela Federação de cumprir integralmente o Estatuto do Torcedor.

Depoimento de Flávio Pereira (coordenador de arrecadação e fiscalização do Flamengo)

“Por volta das 12h do dia 23 de janeiro de 2005, quando Flamengo e Olaria se enfrentariam no Maracanã, recebi ligação de um dos membros de minha equipe, relatando que três de meus fiscais estavam sendo impedidos por Rubens Lopes, presidente da Ferj, de fiscalizar e conferir os ingressos e a distribuição dos mesmos para os bilheteiros. Os fiscais também foram proibidos de ficar na sala de arrecadação.

Ciente dos fatos, determinei que eles se retirassem do local e aguardassem a minha chegada. Quando cheguei ao Maracanã, dirigi-me ao presidente da Ferj em companhia do secretário de Estado Francisco de Carvalho.

Somente aí Rubens Lopes decidiu voltar atrás, autorizando todos os membros de minha equipe a procederem seu trabalho na sala de arrecadação.

Isso ocorreu por volta das 13h30min, quando os ingressos já haviam sido distribuídos sem a presença da fiscalização do Flamengo. O Flamengo foi impedido de acompanhar a prestação de contas feitas por seus próprios bilheteiros, uma vez que eles foram obrigados a apresentar suas contas diretamente à Ferj, sem a presença da fiscalização do clube. Sobre a disponibilização dos ingressos ao público, na chamada venda antecipada, desejo consignar que a Ferj violou o Estatuto do Torcedor, uma vez que os ingressos só chegaram às bilheterias algumas horas antes do jogo. (...) O Flamengo contratou a BWA para confecção dos ingressos de seu jogo com o Olaria. Só que a Federação impediu que fizéssemos a comercialização dos bilhetes, fato comprovado por documento assinado pelo próprio presidente da Ferj, cuja cópia foi juntada no presente feito. A Federação descumpriu decisão judicial da 13ª Vara Cível, que determinava que os equipamentos da empresa BWA não deveriam ser retirados do Maracanã. A Federação desobedeceu a referida decisão judicial, alterando os mecanismos internos das catracas de acesso ao estádio. Tal fato resultou em uma fraude na qual o Flamengo se sente profundamente lesado, uma vez que ingressos do jogo de ontem, Botafogo x América, foram utilizados para acessar o jogo de hoje (Flamengo x Olaria).”

Denúncia de torcedor

Bem como o mecânico Mário Macedo, o torcedor Marco Alberto Pacheco, depois de enviar e-mail colocando-se à disposição da Draco, foi chamado para confirmar denúncias de que no Fluminense x Madureira do Carioca de 2004 funcionários da Suderj pediam aos torcedores para depositarem seus ingressos em sacos de lixo, uma vez que duas catracas da entrada próxima à Uerj estavam com defeito.

Depoimento de Marco Alberto Pacheco (torcedor do Fluminense)

“No primeiro jogo do Estadual de 2004, contra o Madureira, com público de mais de 40 mil pessoas, na entrada da Uerj havia duas roletas quebradas que deveriam ter sido desativadas. Nelas, presenciei funcionários da Suderj, trajando camisa azul e portando crachá de identificação do órgão, com sacos de lixo na mão, pedindo que os torcedores colocassem seus ingressos, intactos, naquele saco de lixo.

Todos sabem que ao passar pela catraca os ingressos são danificados, para que não sejam reutilizados.

Centenas de torcedores depositaram seus ingressos nos sacos.

Os ingressos depositados poderiam ser facilmente revendidos.”

10/01

No segundo capítulo do Dossiê Ferj, o LANCE!, tendo como parâmetro as investigações da Draco e a sentença da juíza Márcia Cunha, da 7ª Vara Empresarial, revela como foi montado esquema de evasão de renda no Maracanã, tendo como personagens principais ex-presidente da Federação, Eduardo Viana, já morto, e Francisco Aguiar, ex-vice e fiel escudeiro.

De acordo com denúncia do Ministério Público Estadual sobre esquema de evasão de renda e formação de quadrilha da Ferj, Eduardo Viana, primeiro denunciado, era responsável pela indicação e manutenção dos demais denunciados em funções que propiciavam os atos ilícitos, atuando como artífice intelectual da organização e dirigindo atividade dos demais suspeitos.

Já Francisco José Soares Aguiar, conhecido como Chico Aguiar, era responsável pelo transporte dos valores desviados e comandava a cooperativa (Coopeb) recebedora da verba destinada ao pagamento das pessoas que prestavam serviços no Maracanã, durante as partidas de futebol, e coordenava a atividade dos outros envolvidos. Utilizava-se, para tal, dos denominados laranjas, que de forma fictícia, integravam administração da cooperativa.

O terceiro denunciado foi Paulo Roberto Pietrolongo, ex-diretor operacional da Ferj. Coadjuvante no esquema era, segundo o MP, o substituto eventual de Aguiar nas funções exercidas no Maracanã.

Gilberto Rangel Lima Júnior, por sua vez, era o coordenador dos trabalhadores que compõe o quadromóvel da Ferj (bilheteiros, orientadores de público e outros). Ele auxiliava Francisco Aguiar na administração da Coopeb.

Ainda de acordo com o MP, Jobel Mendes Braga, o quinto denunciado, era responsável pela confecção fraudulenta de boletins financeiros da Ferj. O último acusado de integrar a suposta quadrilha é Carlos César Martins dos Santos, responsável pelo fluxo dos ingressos (requisição, distribuição, venda e conferência) postos à venda. Era o substituto eventual de Jobel na confecção dos boletins financeiros.

– Se me perguntar se dou um atestado de idoneidade para o Chico, de jeito nenhum. Mas se perguntar se o acuso, também não acuso, até porque não é função minha. Nunca vi o Chico Aguiar lá na Ferj. Ficava no escritório dele, mas ele não tinha essa influência na competição em si. Era responsável pela arrecadação e pelo operacional externo. Arrecadava e pagava. Como teve uma época em que a Ferj estava com contas bloqueadas por causa de penhora, ele fazia muitos pagamentos em dinheiro. E isso gerava uma boataria. Passou a ter uma dimensão de que havia desvio disso daquilo que fica difícil dizer o que de fato acontecia. Não sei – relatou Luís Guilherme Gutman, atual vice geral e jurídico da Ferj.

Em sua dissertação, a juíza Márcia Cunha cita alguns dos pontos levantados por Gutman. Relata, por exemplo, que “os peritos constataram que a renda não é depositada em instituição bancária e os pagamentos são feitos em espécie, o que propicia violação da ordem financeira e tributária, com farto campo para evasão fiscal. É difícil de se imaginar a razão que leva alguém a sair do Maracanã, em uma das mais violentas cidades do mundo, com quantias de quase R$ 500 mil, em dinheiro, depois das 23h”.

Ameaça, seqüestro e truculência

Segundo as investigações da Draco, eram muitos os tentáculos de Francisco Aguiar na Ferj. A sua rede de amizades, a maioria delas por conveniência, deixava clara as reais intenções do ex-vice-presidente da Ferj. Responsável pela arrecadação no Maracanã, Chico Aguiar valia-se, de acordo com a sentença da juíza Márcia Cunha, da 7ª Vara Empresarial, de pagamentos e transportes de valores em espécie que permitiam amplo campo para evasão fiscal. estava lá, tínhamos várias situações complexas. Contas da Ferj bloqueadas, a cooperativa (Coopeb), o operacional externo, que é o órgão que controla a arrecadação, que era com ele. Ele era o vice-presidente daquilo. Dizia-se que o Chico controlava.

O Chico era amigo do Eduardo há anos. O Chico sempre foi ligado ao Fluminense – revela Luís Gutman, destituído ontem, juntamente com toda diretoria, do cargo de vice-presidente jurídico e geral da Federação do Rio.

O relato do jornalista Macedo Rodrigues deixa claro os procedimentos utilizados pela quadrilha (termo como foi qualificado o grupo de Eduardo Viana no relatório da Draco e na denúncia do Ministério Público).

Após publicar no Jornal do Brasil as denúncias que partiram de David Lima, já morto, ex-funcionário de Chico Aguiar, o jornalista foi por diversas vezes ameaçado de morte, por telefone.

As reportagens ensejaram a abertura da CPI da Renda na Alerj, mas a “bancada da bola” impediu a criação da comissão de inquérito.

– Por duas vezes recebi telefonema na redação do JB me parabenizando por ser muito corajoso. O autor da ameaça disse: “Você mexeu com a contravenção do Rio de Janeiro, com a máfia. Você tem filhos? Você não teme por eles? Você é muito corajoso mesmo”. Na outra vez me ligaram informando que tinham até meu endereço, mas eu já havia me mudado e fiz questão de dizer isso a eles – conta Macedo.

Há ainda comunicado de ocorrência de violência contra a mulher (número 000-10074-2004) que consta nos volumes da investigação da Draco/IE e corrobora a truculência do grupo. É o registro do seqüestro da filha de David Lima. Segundo o documento, a vítima, cujo nome foi omitido nos autos, foi seqüestrada para evitar que seu pai depusesse na CPI do futebol e CBF/Nike, na Câmara e Senado Federal. Ainda de acordo com o documento, a quadrilha envolvia gente poderosa. São citadas presença de arma e entorpecentes no cativeiro, localizado na Rua Jandira Perlingeiro, nº 2941, em Nova Friburgo, interior do Rio.

No registro ainda consta o nome de “Ângelo Montoni, técnico contábil de Francisco Aguiar e testa do esquema em Nova Friburgo”.

A reportagem do LANCE! não conseguiu encontrar Francisco Aguiar, descobrindo apenas que ele ainda reside em Nova Friburgo.

Força do grupo chegou até a Alerj

Muitas foram as tentativas de conter a ação do grupo liderado por Eduardo Viana e Chico Aguiar, até agora em vão. Em 2002, após denúncias sobre evasão de renda publicadas no Jornal do Brasil, a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) colocou em votação a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). Porém, a chamada bancada da bola conseguiu embargar a CPI, causando grande revolta entre os que defendiam a investigação, incluindo o então presidente da Alerj e atual governador do Rio, Sérgio Cabral.

Em entrevista publicada no site da Alerj em 2002, Cabral afirmou que “foi uma decisão esdrúxula”. – A população toda sabe que há roubo da renda no futebol, que existem dirigentes inescrupulosos, e nós não vamos fazer nada. Fiquei surpreso com a posição do líder do governo (José Távora PSC) e até do meu partido. Mas acho que o Anthony Garotinho não tem nada a ver com isso – disse o governador na entrevista concedida em 2002.

Paulo Melo, que na época era líder do PMDB na Alerj, disse não saber do que o governo tinha medo.

– Isso é uma vergonha, um jogo sórdido. O Eurico Miranda e o Caixa D'Água têm dinheiro para pagar advogados, não precisam de deputados. Não sei do que o governo tem medo – disse, em 2002.

Derrame de ingressos comprovado

A campana policial realizada pelo inspetor de Polícia Civil Hélio Lima, em 2004, constatou que o derrame de ingressos a cambistas, denunciado à Draco pelo mecânico Mário Macedo de Moura, revelado no capítulo de ontem, era feito através das bilheterias do Maracanã. Por determinação da polícia, Hélio compareceu à bilhetaria 5 do estádio e espreitou a venda de bilhetes paraumindivíduo, o qual identificou e garantiu ser cambista. Durante a ação, ele reconheceu também o bilheteiro, que trabalhava no quadro-móvel da Suderj. Trata-se de Damião Freitas RG 104990597-00).

DEFESA DA FERJ

Extravio - Foi constatado extravio em uma roleta no jogo Fla x Cruzeiro. Os fatos foram narrados no relatório final da Suderj e os prestadores de serviço foram afastados. A Ferj apresentou demonstrativos de receitas e despesas do jogo citado. A diferença apurada no número de ingressos corresponde aos bilhetes das cadeiras brancas, cujos cartões permanecem em mãos dos torcedores.

Confecção e controle - A adulteração do valor de ingressos não pode ser imputada à Ferj, pois os preços são previamente tabelados, anunciados e amplamente divulgados. Essa adulterações podem ter sido feitas por cambistas, para facilitar a majoração do preço cobrado.

Transporte - O transporte dos ingressos não vendidos é dotado de segurança e até acompanhado de policiais quando necessário. O pagamento de algumas despesas em espécie sempre existiu. Os jogos se realizam durante a semana, à noite, e com término por volta das 23h, e nos fins de semana, quando as agências bancárias estão fechadas. E não há serviço de recolhimento de valores em carro-forte devido à falta de segurança pública, de modo que não há como se efetuar o imediato depósito em conta corrente.

Renda - Todos os comprovantes das despesas efetuadas com os referidos jogos foram encaminhados para a Draco para integrar os autos do inquérito que está sendo conduzido. Não é possível a evasão de renda através da Coopeb porque os clubes e a Suderj fiscalizam todos os postos e locais de trabalho do pessoal do quadro-móvel.

Funcionários - O montante que se destina aos prestadores de serviço (Coopeb) é repassado em espécie pelo responsável pela arrecadação (Chico Aguiar) no próprio dia do jogo, no local do evento, ou no dia seguinte, nas dependências da Ferj, por ser o modo mais prático de efetuar o pagamento à pessoas de pequeno poder aquisitivo. Os pagamentos são efetuados mediante recibos provisórios que são substituídos ao final do mês por nota fiscal e com comprovação do recolhimento das contribuições previdenciárias.

Público - Os planos de ação para os respectivos jogos foram elaborados e executados para cada um deles em conjunto com os órgãos e agentes do serviço público, e todos os envolvidos no evento.

JUÍZA REBATE ALEGAÇÕES DA FERJ SOBRE ESQUEMA

Extravio - No jogo entre Flamengo e Cruzeiro, a perícia informou que 700 ingressos contabilizados roleta M-17 se extraviaram, justificado como invasão de torcedores. O fato não foi comunicado aos peritos, bem como não há prova que foi comunicado aos policiais ou ao Jecrim. A roleta foi examinada no jogo seguinte e apresentava sistema de segurança, sem sinal arrombamento. Além disso, não foram encontrados nos malotes ingressos recolhidos nas roletas 11.191 bilhetes.

Confecção e controle - A confecção de ingressos permite a violação do valor impresso, como constatado pela perícia em bilhetes apreendidos. A perícia aponta que o controle de ingressos do Maracanã não se encontra em conformidade com as necessidades do local e com a moderna tecnologia disponível, possibilitando a evasão de receitas.

Transporte - Foi verificada falta do cuidado devido no transporte de valores e ingressos não vendidos desde as bilheterias até a sala onde os bilheteiros prestam contas. Os peritos não viram nenhum procedimento de segurança, tanto para reprimir como para prevenir qualquer ameaça aos bens transportados.

Renda - Os peritos constataram que a renda não é depositada em instituição bancária e os pagamentos são feitos em espécie, com farto campo para evasão fiscal. Dizem que é difícil imaginar a razão que leva alguém a sair do Maracanã com quase R$ 500 mil em dinheiro, depois das 23h. Os argumentos utilizados pela Ferj de que não há transporte em carros-fortes e agências bancárias abertas às altas horas da noite e nos finais de semana que recomenda que o dinheiro apurado seja guardado em caixa-forte do estádio sob vigilância até o dia útil seguinte para ser transportada em carro-forte até o banco.

Funcionários - O fato de pessoas humildes terem dificuldade de receber por meio de depósito bancário também não se justifica, pois em todas as empresas e no serviço público há trabalhadores de baixa renda que recebem desta forma.

Público - Segundo peritos, a previsão de público é superestimada. Em um Fluminense x Goiás, por exemplo, foi previsto público de 50.500 pessoas, mas compareceram 14.995 pessoas. Isso gera gastos desnecessários com confecção de ingressos, pessoal e segurança.

11/01

As armações na Federação do Rio não restringem-se apenas à obtenção de vantagens pecuniárias. Os resultados de jogos também estão sob suspeita. Dentre os seis volumes das investigações da Draco, um deles refere-se à manipulação na escala de árbitros e pressão sobre os mesmos. E o que não falta é criatividade. Segundo denúncia anônima, anexada ao processo movido pelo MP, as escalas de árbitros eram por vezes feitas em um terreiro de macumba, em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio. A informação foi confirmada por funcionária da Ferj, que, com medo, pediu que seu nome ficasse em sigilo.

Segundo o denunciante, que teve seu nome preservado pela Draco, o árbitro Gutemberg de Paula Fonseca, escalado para a partida Friburguense x Americano, no dia 19 de março do ano passado, favoreceu a equipe de Campos.

De acordo com a mesma denúncia, o pai de Gutemberg, identificado como Franklin, foi contratado pela Ferj e seria responsável por “lembrar” árbitros escalados dos favores prestados por Eduardo Viana.

Chamado para depor na Draco, Gutemberg negou as acusações, mas confirmou que seu pai é funcionário da Ferj e que Eduardo Viana freqüentava, de fato, o centro espírita de sua tia.

– Minha tia, Maria Alice Barbosa da Fonseca, possui um centro espírita na Estrada dos Bandeirantes, 5136, em Jacarepaguá, há 45 anos. Eduardo Viana comparecia no local uma ou duas vezes por mês – disse em depoimento à Draco.

Tardelli confirma que a pressão continua

Este ano, Wagner Tardelli, árbitro conhecido no Rio, deixou a Ferj. O motivo foi apenas uma proposta melhor da Federação de Santa Catarina, mas nem por isso ele deixou de lembrar a época em que foi afastado pelo falecido Eduardo Viana após um suposto erro em um jogo do Americano. E mais, afirma que esse tipo de procedimento foi rotina durante 20 anos na Ferj e imediatamente adotado pelo atual presidente, Rubens Lopes, que foi afastado na terça-feira pela Justiça, mas ainda permanece no cargo porque a decisão dos desembargadores da 4a Câmara Cível ainda não foi publicada no Diário Oficial.

– Fiquei dois anos sem atuar no Estadual, de 2002 a 2004. Afastamento comunicado pelo então presidente da Ferj, Eduardo Viana, em função do jogo Americano x Flamengo, pelo Estadual de 2002, no Godofredo Cruz. Foi 3 a 3. Ele entendeu que eu tive uma atuação que prejudicou o Americano. Não vi erro. Esse tipo de manifesto foi rotina durante 20 anos e imediatamente adotado pelo atual presidente – contou.

O árbitro afirmou, ainda, que o “poder da caneta” encerrou carreiras. Diz que a comissão de arbitragem não tem independência para trabalhar e que Eduardo Viana e Rubens Lopes têm o hábito de interferir nas questões da arbitragem.

– O poder da caneta, da mão-deferro e da mordaça continua. Teve um auxiliar antigo, que só me lembro do nome Montenegro, que encerrou sua carreira em um jogo entre Americano e Fluminense por ter marcado um impedimento contra o Americano que o Eduardo achou errado. Nunca mais voltou. Hoje em dia, essa comissão também não é independente para trabalhar. Não foi durante 20 anos e não é agora. Sabemos que não é. Há interferência dos presidentes – garantiu.

De acordo com Tardelli, que esteve ontem na redação do LANCE!, Rubens Lopes não quis recebê-lo após saber que estaria deixando a Ferj. Ele critica a falta de preparo, renovação e planejamento no quadro de arbitragem do Rio.

– Hoje não temos árbitros em condições de alcançar um quadro internacional. Faltam projetos, preparação e respeito com o árbitro, que dentro da Ferj é quem menos tem valor. Decidem tudo pelo árbitro. Um fato importantíssimo para que a comissão desenvolva melhor o trabalho é não permitir que árbitros incapacitados, sem formação profissional adequada, ministrem cursos de formação de árbitros nas ligas, como acontece – disse o juiz, agora sob a alcunha Fifa-SC.

'Não pode dar zebra nos jogos da Federação'

Cláudio Vinícius Cerdeira: Em entrevista exclusiva ao LANCE!, o ex-diretor da comissão de arbitragem da Ferj, afastado por Eduardo Viana, fala sobre pressão e manipulação de escalas.

Cláudio Vinícius Cerdeira é um nome conhecido e respeitado entre os árbitros, especialmente depois da atitude que tomou em 1993, quando denunciou o então presidente da comissão de arbitragem da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, a Ferj, Wagner Canazaro, que, entre outros absurdos, disse em reunião que “quando o árbitro fosse escalado, era para ligar para ele para saber o que teria de acontecer no jogo”.

Em 1993, o senhor denunciou uma tentativa de manipulação de resultados do Estadual do Rio do ano seguinte. O que o levou a isso?

Foi uma reunião do antigo diretor de arbitragem, Wagner Canazaro, com todos os árbitros da Primeira Divisão. Ele começou a falar umas coisas estranhas, do tipo: “Não pode dar zebra nos jogos... Quando o árbitro for escalado, ligue para mim para saber o que terá de acontecer no jogo.” Foram absurdos desse nível, diretos. E naquela época eu e o Cláudio Garcia questionamos, denunciamos e gerou até a tentativa da instauração da CPI do Apito, que não aconteceu. A partir desse momento, eu fiquei de vez afastado dos principais jogos organizados pela Ferj e fui contratado pela FPF.

E os demais árbitros concordaram com isso?

Todos ficaram assustados. Ninguém esperava que ele falasse isso em uma sala com 60 ou 70 pessoas.

A mesma coisa aconteceu com o Álvaro Quelhas, não é?

Isso era uma coisa que o Caixa D’Água fazia muito, essa pressão. Os árbitros não podiam errar contra o Americano. Qualquer erro do árbitro ou do assistente, e estavam automaticamente afastados por várias rodadas. Mas ele não dizia isso. Até porque sempre foi muito inteligente. Deixava subentendido nas suas ações. O Álvaro Quelhas foi isso. Em um jogo entre Americano e Vasco, ele deixou de dar um pênalti para o Americano e parou de apitar. Aí, o Álvaro foi questionar e acabou sendo expulso da Ferj pelo Eduardo. Foi, então, para a Federação Mineira. Foi um erro normal, que não precisaria de punição desse nível. Mas acontecia muito isso na Ferj, muito.

Quando o senhor assumiu a comissão de arbitragem da Ferj, em 2005, qual foi sua impressão?

O Caixa D’Água nunca se interessou pelo desenvolvimento da arbitragem. Aqueles que não se deixavam levar acabavam sendo afastados. E isso levou diversos árbitros, com nível superior, pós-graduação, independentes, de caráter, a sair.

Mas como identificar árbitros que eram afastados por esses motivos se não era uma coisa direta?

O que a gente percebia era que alguns árbitros cometiam erros e, em vez de ficarem afastados por um tempo, eram escalados para outros jogos logo depois. Alguns que erravam eram afastados, outros não.

Você chegou a ter algum contato com o Chico Aguiar?

Nenhum. Tivemos só uma passagem em um jogo entre Bangu e Fluminense. Ele era Fluminense, e o Bangu ganhou. Na hora que eu estava saindo do gramado ele falou: “Cerdeira, você nunca mais vai apitar jogos do Fluminense”. Falou assim, diretamente. Aí respondi até de forma pouco educada: “Quero que você e a arbitragem vão para aquele lugar, porque eu não preciso disso para viver”. E ficou assim. Logicamente, percebi que fiquei algum tempo sem apitar jogos do Fluminense.

Fora da Ferj você já recebeu algum tipo de pressão? Na CBF, por exemplo?

Aconteceu uma coisa interessante com o Ives Mendes, que era o antigo presidente da comissão de arbitragem da CBF. Teve, uma época, uma briga entre o Marcio Braga e o Ricardo Teixeira. E em um Flamengo x Vasco, pelo Brasileiro, na véspera do jogo, recebo o recado da CBF que o Ives queria falar comigo. Começou com uma conversa vaga, mas eu disse que não estava entendendo onde ele queria chegar. Aí ele falou: “Você está vendo essa briga política do Flamengo com a CBF. Então, se você tiver de errar, erre contra o Flamengo”. Aí falei: “Como é que é? Você vai me desculpar, mas não vou ao jogo para errar, vou para acertar. Melhor você me tirar do jogo, porque pelo que você está dizendo não sou árbitro para esse jogo”. Aí, ele desconversou, falou que eu já estava escalado, desejou boa sorte e tal... Para minha sorte, o Flamengo ganhou de 3 a 0 do Vasco, o que mostrou para ele que eu não me deixei levar. Na verdade, o que ele disse, em outras palavras, foi para o Flamengo perder. Mas fiquei numa situação complicada, porque eu não tinha testemunha. Só se tivesse gravado. Foi diferente do Wagner Canazaro.

E hoje, como está a comissão de arbitragem?

Agora está o Carlos Elias Pimentel na presidência da comissão. O ato 001 da volta do Caixa D’Água foi destituir a minha comissão. Ele sabia que comigo não ia ter essa de pressão. E até deixei ele me excluir, porque também não queria pedir para sair. Esperto do jeito que ele era, diria: “Eu até queria que o Cerdeira tivesse continuado, mas ele pediu exoneração, então não posso fazer nada”. Deixei ele me excluir para mostrar que ele não queria que a coisa continuasse com seriedade. Aí, ele acabou nomeando outra comissão. O Pimentel era muito amigo dele, de muitos anos, de Uerj, inclusive, e está lá até hoje.

Mas depois que você saiu, qual era o nível de pressão que existia? Tem como avaliar?

Eu notei que alguns árbitros que nós tínhamos dado oportunidade continuaram a ter chances. Mas alguns outros, que nós tínhamos afastado, retornaram. Haviam sido afastados por problemas técnicos, físicos, por aceitar pressão. Certos nomes ficam meio que marcados. Não sei o motivo para esses afastados voltarem, só sei que foi um prejuízo para a arbitragem.

13/11

As denúncias da pessoa que trabalha na Federação do Rio, publicadas sexta-feira, no quarto capítulo do Dossiê Ferj, deixaram o promotor Rodrigo Terra pronto para agir. Terra confirmou ao LANCE! ontem, por telefone, que basta o funcionário Jurimar, citado nas denúncias, confirmá-las em depoimento ao Ministério Público, para que ele as envie à Central de Inquéritos, para que sejam devidamente comprovadas.

– A maioria das denúncias têm a ver com crime, por isso, temos de enviá-las, primeiro, à Central de Inquéritos. Como cidadão, isso tudo me deixa muito entristecido de ver como um ser humano pode chegar a um ponto tão baixo. Como promotor, tenho a obrigação de apurar e tomar as medidas cabíveis.

A decisão do desembargador Sidney Hartung, de nomear um mediador e não um interventor para tomar conta da Ferj também desagradou o promotor Rodrigo Terra.

Na segunda-feira, ele garante que entrará com um embargo de declaração para solicitar que Hartung reveja a sua posição. Segundo Terra, decisão de segunda instância foi ‘‘contraditória’’.

– Foi negado provimento aos apelos dos dirigentes da Ferj. Portanto, a decisão da primeira instância foi mantida integralmente. Por isso, o desembargador teria de dar poder de gestão ao mediador, para que toda a diretoria pudesse ser afastada, sem prejuízo nas funções da entidade. O embargo de declaração serve justamente para acabar com essa contradição – explica promotor Rodrigo Terra.

Terra entende ainda que os atuais dirigentes da Ferj não podem concorrer à próxima eleição.

Segundo ele, isso também contradiz a decisão da Juíza Márcia Cunha, da 7ª Vara Empresarial (primeira instância). O embargo de declaração proposto por Rodrigo Terra também tratará desta outra questão.

Chiquinho rebate as denúncias

Ex-secretário estadual de esportes e ex-presidente da Suderj, o deputado estadual Francisco de Carvalho reagiu com indignação à denúncia de que ele desviava ingressos da promoção Gol de Placa, para distribuir para os seus, como apontou X, no capítulo de ontem do dossiê da Ferj.

– Isso não tem o menor fundamento. Estes ingressos, na maioria das vezes, eram trocados nos próprios clubes. Quem cuidava disso era a Federação – rebateu Francisco de Carvalho.

Chiquinho, como é conhecido o deputado, confirmou que existe derrame de credenciais por parte da Federação.

– Na final da Copa do Brasil do ano passado, isso aconteceu. É verdade. A Federação distribuiu 1.500 credenciais. Isso mais os ingressos de cortesia e os que foram vendidos causou superlotação nas cadeiras especiais. Quem tem de prestar contas disso é a Federação. A Suderj não tem nada a ver com isso – disse Chiquinho confirmando denúncia de X.

PODER DAS LIGAS

Luís Gutman fala sobre eleição e a relação entre Eduardo Viana e as ligas amadoras

A nova eleição presidencial na Federação do Rio, a princípio, foi marcada para o dia 30 deste mês. Mas o mediador indicado pela 4ª Câmara Cível ainda terá de aprovar a data. Porém, o sistema eleitoral na entidade permanece intacto, mantendo a estrutura que permitiu ao falecido Eduardo Viana continuar no poder por mais de 20 anos (veja no quadro acima).

De acordo com o estatuto da entidade, cada clube da Primeira Divisão possui voto peso seis. Os da Segundona têm voto peso quatro, os da Terceira Divisão peso dois, e as ligas e clubes amadores possuem voto peso um. O advogado não confirma, ou desmente, a utilização de ligas inoperantes para obter maior número de votos e maior poder de influência dentro da entidade, mas admite que Viana usava as ligas para se manter no poder.

– Qual a grande crítica? É que os grandes clubes têm seu poder mitigado por conta do poder das ligas e que historicamente o Eduardo usou ligas para se manter no cargo – explicou Luís Gutman, entrevistado antes da publicação do Dossiê Ferj.

Gutman confirmou que parte do poder de Eduardo vinha de fato das ligas amadoras, mas que a legislação não permite que haja uma proporção maior do que seis para um.

Daí o poder de voto das ligas.

– Não há a menor dúvida que o poder do Eduardo veio muito das ligas, é óbvio. Se falar que ele não tinha nada a ver com as ligas é uma mentira deslavada. Mas quem é filiado tem direito a voto e as ligas são efetivamente filiadas. A lei diz que você não pode ter uma proporção de um pra vinte. Se eu pudesse, diria o seguinte: a liga tem direito a um voto; clubes amadores a dois; os da terceira a 3 votos; os da segunda a cinco votos, e os da primeira a 50 votos. Eu acho que isso seria o razoável. Só que é contra a lei – explicou o dirigente.

BATE-BOLA - LUÍS GUILHERME GUTMAN

Antes da publicação do Dossiê Ferj, o advogado falou ao LANCE! sobre ligas fantasma e admite que o ideal seria agrupar ligas.

Ainda existem ligas fantasma atualmente?

A liga inoperante é a liga fantasma. Talvez até tenham sido usadas. O Eduardo era muito inteligente. Nunca fez uma briga com os quatro grandes clubes. Ele sempre dizia isso. Sabia que não podia ficar com os quatro a favor ou os quatro contra. Dizia que das duas formas eles ficariam unidos e poderiam derrubá-lo. É o negócio da visão política dele. Poder das ligas é uma bobagem, o poder é dos quatro grandes.

Por que até hoje não houve uma reforma nesse sistema eleitoral da Ferj?

Já falei sobre isso com o Rubinho (Rubens Lopes). Mas a Ferj é muito aquele negócio do síndico. Não adianta ter uma idéia mirabolante se as pessoas não concordarem.

Talvez o ideal seria ter uma divisão de elite, uma segunda e uma divisão de acesso. Teria de pensar melhor. Eu acho que o ideal seria de fato agrupar essas ligas por região.

E o que pode ser feito de imediato para diminuir a influência das ligas?

Você querer lutar pelo poder é lícito, desde que seja para implantar suas idéias. Ter o poder só para ter o poder eu sou contra. As ligas também têm uma série de questões sociais envolvidas. Esta é uma discussão que não se faz de uma hora para outra. O Rubinho assumiu em agosto. De lá para cá, estamos no córner levando soco, e sem tempo de poder respirar e fazer outras coisas.

O início do poder das ligas na Federação

De acordo com Luís Guilherme Gutman, trazido para a Ferj por Eduardo Viana e amigo do mandatário que morreu no ano passado, Caixa D’Água comandava, antes de existir a Ferj, a entidade que respondia pelo futebol do estado, mas não pelos clubes da capital. O advogado diz que com a fusão desta entidade com a da Guanabara, que tinha 12 clubes e era liderada por Otávio Pinto Guimarães, Viana consegue “atropelar um pouco o poder político do antigo estado da Guanabara chegando com uma grande quantidade de ligas e clubes”.

A tática de Eduardo Viana, dentro da Ferj, era no mínimo curiosa.

Ao contrário do que ensinam os livros de sociologia, o dirigente evitava a todo custo a unanimidade. Dizia que era fundamental ter pelo menos um dos quatro grandes clubes do Rio em posição contrária aos demais. Isso porque Eduardo temia que a união de forças dos quatro tornasse insustentável a sua manutenção no poder. Com dois ou três grandes, mais os clubes e ligas do interior, Eduardo era praticamente imbatível na Ferj.

Segundo relatos, Eduardo Viana preferia poder a dinheiro. Ficava satisfeito quando faziam doações de jogadores para o Americano e de equipamentos para a Federação.

Porém, as investigações da Draco apontaram Viana como líder do esquema de evasão de renda, que gerou processo do MP.



Fonte: Lance




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