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| NETVASCO - 23/04/2006 - 09:50 - Torcidas organizadas encontram novas motivações para violência No Campeonato Brasileiro do ano passado, uma briga dentro da torcida Jovem do Flamengo chamou a atenção da polícia. Era um jogo relativamente vazio, no modesto Estádio Luso-Brasileiro, e de repente abriu-se um buraco no meio da facção. A aparente ausência de um ambiente propício ao confronto acabou quando, mais tarde, descobriu-se que os brigões moravam em áreas dominadas por facções rivais no tráfico de drogas. A rixa alastrou-se das comunidades para as arquibancadas. Desavenças motivadas pela cultura do tráfico carioca formam a face mais impressionante de um fenômeno que desafia os esforços da polícia para conter a violência associada ao futebol. Acontece quando ela nasce de fatores que vão muito além das paixões clubísticas e, por isso, irrompe silenciosa e internamente. A rixa entre facções do tráfico, por exemplo, é considerada uma variação das brigas entre galeras de baile funk (lado A e lado B) que, durante alguns anos, estenderam-se para os estádios. — Estas brigas não são provocadas necessariamente por traficantes, mas por pessoas que, só por residirem em áreas dominadas por facções diferentes, já vivem em rixa. Quando se encontram nas ruas, em grupos a caminho do estádio, o confronto é quase inevitável. É a mesma lógica dos cemitérios em que separam mortos das duas facções — afirma o delegado Reginaldo Félix, do Núcleo de Prevenção e Repressão à Violência nos Estádios. Prevenir e reprimir ações de grupos com milhares de pessoas não é tarefa simples, principalmente quando eles estão distribuídos pela cidade. As maiores torcidas organizadas têm subdivisões referentes à região onde moram seus componentes. Hoje em dia, a maior parte dos conflitos acontece bem longe dos estádios. — Com estão divididas por comunidades, as torcidas recebem pessoas que trazem problemas destes lugares, inclusive rivalidades do tráfico. A maioria delas não tem marginais, mas precisa de ajuda contra os marginais que se infiltram ali. Nem nós nem a direção das torcidas conseguimos ter controle total sobre estes elementos — afirma o comandante do Grupamento Especial de Policiamento em Estádios (Gepe), major Marcelo Pessoa. Em quase sete anos de trabalho, a maior briga que o major Marcelo já viu nada teve a ver com rivalidade entre clubes. Há quatro anos, um conflito entre a Jovem e a Raça do Flamengo em frente ao Maracanã envolveu milhares de pessoas. O motivo: distribuição de ingressos. Aconteceu numa época em que a prática era mais comum e buscava apoio político para cartolas. Atualmente, ocorre também troca de favores entre candidatos e torcidas em eleição proporcional. No último pleito para deputados, a Força Jovem do Vasco, por exemplo, tinha candidatos oficiais para Assembléia Legislativa e Congresso Nacional. Recentemente, uma disputa também de viés político, com registro de atos violentos, provocou um fenômeno singular nas arquibancadas. A Força Jovem do Vasco se dividiu por causa de uma eleição interna cujo pano de fundo era o apoio ou a independência em relação à diretoria do clube. Até criarem facção própria, o grupo dissidente se aliou à torcida Fúria Jovem, do Botafogo, num movimento que foge a qualquer compreensão puramente futebolística. O Campeonato Carioca deste ano foi considerado tranqüilo pela polícia. A rivalidade entre as torcidas de Flamengo e Botafogo se acirrou por causa da morte do alvinegro Rafik Cancio a golpes de foice numa briga com a Jovem Fla, ano passado, mas novamente um dos maiores problemas aconteceu entre torcidas do mesmo time. Numa prosaica disputa por espaço para fixação de faixas, a Garra Tricolor e a Jovem Flu já deram trabalho à polícia. — A gente começa com punições como proibir a entrada de bandeiras e instrumentos. Depois, vamos endurecendo — diz o major Marcelo. Pela natureza do trabalho, o comandante chama o Gepe de “batalhão de choque com características de polícia comunitária”. Seu objetivo é deixar o torcedor familiarizado com o PM que fará sua escolta do ponto de concentração até o estádio. Para facilitar o entrosamento, são destacados policiais que torcem para o time com o qual eles têm de lidar. Além disso, há informantes dentro das torcidas que contam onde acontecerão brigas marcadas — algumas em sites de relacionamento na internet. São as novas tecnologias a serviço das novas rivalidades. Um grupo de fanáticos que não quer uma ideologia para viver Visto por um marciano recém-chegado à Terra, um Fla-Flu pode ganhar conotações político-religiosas. Do lado tricolor, a música “A benção, João de Deus” é comum, bem como uma bandeira com o desenho de João Paulo II. No rubro-negro, já apareceu bandeira da Palestina e outra com o rosto do ex-ditador iraquiano Saddam Hussein, que também é saudado no coro de uma torcida organizada. Mas, em alguns minutos na arquibancada, o marciano vai perceber que nada ali é o que parece. Ao contrário de algumas torcidas organizadas de clubes europeus, ligadas a religiões, partidos ou posições políticas, as brasileiras são caracterizadas pela mistura de ideologias, o que pode significar a ausência delas. Qualquer referência fora do futebol não tem, outro objetivo que o de exaltar o clube e, principalmente, a própria facção. — Todas as manifestações das organizadas, inclusive as de violência, estão despidas de uma ideologia definida. Estas facções muitas vezes se inspiram em figuras que eles nem entendem. As torcidas nascem de grupos excluídos que, pela paixão e pelo ócio, se juntam para se divertir e mostrar poder — afirma o promotor licenciado Fernando Capez, que se ocupou durante mais de cinco anos dos problemas causados pelas organizadas de São Paulo. De fato, as arquibancadas do Maracanã às vezes abrigam uma miscelânea de referências. Em bandeiras de torcidas organizadas do Rio já foram vistas figuras tão improváveis quanto Bob Marley, Bin Laden, Che Guevara, João Paulo II e Aiatolá Khomeini. Em relação ao último, uma facção do Flamengo cantava seu nome nos anos 90 enquanto simulava o ritual de autoflagelamento comum em seu regime no Irã. O coro de Saddam Hussein é cantado até hoje. — Isso foi coisa de um diretor passado que gostava do Iraque. Eu não gosto disso, mas é difícil tirar a música da cabeça dos torcedores — explica o presidente da Jovem Fla, André Valadas. Há seis anos, policiais federais descobriram posição menos ingênua. Eles fecharam a sala da facção Nazistas da Baixada, ligada à Raça Rubro-negra, que usava a suástica como símbolo. Na época, o líder da torcida, Plínio Nélson Pereira, negou qualquer motivação política ou racial. — Minha mãe é negra. Como vou ser racista? Escolhi a suástica simplesmente pelo fato de ter gostado do desenho. Pelo sim, pelo não, Plínio foi preso. Teve o mesmo destino do rubro-negro que matou Rafik Cancio, que era ligado à Fúria Jovem. Embora as autoridades concordem que a violência entre torcidas tenha recuado, sua cultura ainda está expressa na maioria dos cantos entoados nos estádios. No jogo contra o Guarani, semana passada, no Maracanã, podia-se ouvir na torcida do Flamengo uma música em que se lembra, com orgulho, o assassinato de Rafik. Outros cantos lembram brigas famosas entre as torcidas e ainda há aqueles entremeados de xingamentos e ameaças de novos confrontos. — Estas músicas são mais uma gozação do que para estimular a briga — diz o diretor da Fúria, Sérgio Pinto. Pensamento realista tem o major Marcelo, do Gepe: — Estou nisso há mais de seis anos e ainda não consegui entender a paixão desse pessoal pela torcida. Reflexões de um torcedor brigão arrependido Houve um tempo em que o tricolor Leandro Carvalho achava que brigar no Maracanã fazia parte do show. Estava habituado à rotina desde os 12 anos, quando começou a freqüentar a organizada Young Flu. Sem fugir de pancadarias, subiu no conceito dos companheiros até assumir a presidência da torcida. Em 2004, num conflito com vascaínos, começou a rever seus conceitos. — Foi a minha última briga — garante. Depois dela, Campinho, como Leandro é conhecido, ficou seis meses preso, acusado de atirar num vascaíno. Em liberdade condicional, diz que voltou à presidência da torcida para dar o seu testemunho a outros brigões e implantar uma filosofia pacífica. Ao mesmo tempo, em todos os jogos planeja escolta da sua torcida com o comandante do Gepe, major Marcelo Pessoa, que o considera um exemplo de recuperação de torcedor brigão. — Às vezes, estou no Maracanã e fico vendo aqueles caras que estão ali doidos para o jogo acabar porque tem briga marcada lá fora. Aí eu penso que já fui assim. Não percebia que não tem lógica brigar porque o outro está vestido de vermelho e preto — conta Campinho, que nega ter dado tiro naquela briga e está tentando provar sua inocência. Quando voltou da prisão, Campinho conta que encontrou resistência de companheiros dos tempos de briga. Não estavam acostumados a vê-lo tranqüilo nos estádios, pensando só em incentivar o Fluminense. Antes dos jogos, ele liga para o comando do Gepe para informar a trajetória dos subgrupos de torcedores, para que seja feita a escolta da polícia. Para tentar “limpar a imagem” das organizadas, também procura fazer ações sociais, como doação de sangue e de agasalhos na sede da torcida. — É claro que ainda há brigas, mas bem menos. Só se um grupo sair sem escolta. Repito sempre para os meus companheiros que brigar não está com nada. Quando sei de alguém que descumpriu a ordem, afasto na hora — afirma. Aos 27 anos, Campinho sabe bem o que passa pela cabeça destes brigões. Segundo ele, impera o conceito de que homem é aquele que não foge da briga. — Pesa a questão do brio, do coração valente. Os torcedores vão empolgados pela adrenalina normal dos jovens que estão em grupo. Quando dois grupos rivais se encontram, é uma bola de neve que não tem como parar. Como vou controlar milhares de pessoas? Seria mais fácil, concorda ele, se um estranho sentimento não existisse. — Tem muita gente que acha torcida mais importante que o time — diz. Policiais e torcedores em sintonia Policiais, estudiosos e dirigentes de torcidas organizadas ouvidos pelo GLOBO concordam que já se brigou e matou mais por causa de futebol. Medidas punitivas e educativas têm funcionado, mas todos também reconhecem que nem sempre é possível impedir a infiltração de marginais. — Tem gente mal intencionada em todo lugar, inclusive nas torcidas. Mas, se a gente souber, expulsa — diz o diretor da Fúria, Sérgio Pinto. O comando do Gepe também acredita que a maioria das brigas não está mais relacionada aos diretores das torcidas. Mesmo assim, eles podem ser punidos no lugar de seus comandados. A Jovem Fla quase fechou após a morte de Rafik Cancio, mas o presidente André Valadas diz que a maioria dos envolvidos na briga não era da torcida. Fonte: O Globo |
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