Feminino: Ex-técnica do Vasco e descobridora de Marta, Helena Pacheco relembra passagem pela Colina
Quinta-feira, 15/03/2018 - 06:13
Se você é fã da Marta, da Pretinha ou da Sissi, e passou a acompanhar futebol feminino por causa dessas jogadoras, você deve muito a essa senhora da foto. Seu nome é Helena Pacheco. Foi jogadora de vôlei e futebol e se destacou como treinadora. Foi proibida de cursar futebol na faculdade de Educação Física, mas não se abateu e seguiu trabalhando para que as mulheres pudessem ter condições de praticar o esporte com qualidade aqui no Brasil. Ela também foi a responsável pela descoberta de Marta, eleita cinco vezes a melhor jogadora de futebol do mundo.

A experiência na área e a vivência nas quatro linhas permitiram que Helena Pacheco se transformasse em referência quando se fala em futebol feminino no mundo. E o Torcedores.com conversou com a professora sobre vários assuntos como: preparação física, Seleção Brasileira, novos talentos e preconceito. Logo abaixo você pode conferir a primeira parte dessa aula de futebol feminino.

TORCEDORES.COM: Professora Helena Pacheco, como foi o seu início de carreira? Como você chegou ao futebol feminino e que lições você tirou dessa trajetória?

HELENA PACHECO: Eu comecei primeiro jogando, fui atleta de voleibol, depois passei a jogar um pouco de futebol e depois eu vi que poderia contribuir mais sendo técnica de futebol. Eu fui fazer a faculdade de Educação Física. Eu já era formada em Psicologia. E para meu espanto, quando cheguei na universidade, isso em 1983, eu não pude fazer a cadeira de futebol e nem futsal. Então eu fiquei como assistente na Universidade Gama Filho, me formei e não consegui estudar a cadeira de futebol. Fiz cursos paralelos que foram talvez mais importantes e me fizeram buscar alguma coisa de prática. Assisti à muitos treinos, fui muito bem vinda no futebol masculino e vários técnicos consagrados me receberam muito bem. Eu tive até melhores ensinamentos do que na universidade. Mas era lei e a gente não podia passar por cima disso. Comecei como técnica de futsal no Country Club da Tijuca, depois fui convidada por um sócio do clube para trabalhar no Vasco e nós fomos pra lá com a equipe de futsal. A gente fez um trabalho buscando o futebol de campo. Na ocasião, toda a nossa equipe foi convocada para a Seleção Brasileira de futebol de campo. E o Eurico Miranda achou aquilo estranho na época (já que não quase não existia futebol de campo feminino no Rio de Janeiro) e começou a apoiar o projeto. Aquilo foi importante porque um time de camisa começou a provocar outros times de camisa como o Flamengo, o Fluminense, o Botafogo, e isso deu um impulso muito interessante para que o futebol feminino começasse a ter um pouco de visibilidade.

TORCEDORES.COM: A partir desse momento, o futebol feminino teve um ganho? O que mudou depois desse apoio da atitude do Vasco?

HELENA PACHECO: Nós conseguimos patrocínios e eu tive uma equipe muito boa formada por profissionais de gabarito como nutricionistas, ginecologistas (que era uma coisa que não existia dentro dos clubes). Foram alguns ganhos que foram melhorando a situação do futebol feminino. Naquela ocasião, a CBF começou a incentivar mais os torneios nacionais. O Vasco teve bastante visibilidade assim como o São Paulo, a Portuguesa e o Internacional. Começaram a aparecer meninas de todos os cantos do Brasil pra poder jogar futebol. Alguns clubes possuíam uma base muito importante, porque eles pagaram o salário para as meninas e tinham profissionais gabaritados para formar esse tipo de jogadoras. E antes da Marta, que foi talvez a estrela maior do nosso futebol feminino, nós tivemos grandes nomes como a Pretinha e a Sissi. A Pretinha foi a revelação da primeira Olimpíada que o Brasil participou, em 1996. E nós começamos a formar jogadoras. Isso é o que mais importa e talvez hoje nós não tenhamos isso no Brasil. A formação da menina no seu início de preparação para algum esporte. Ela joga um pouquinho quando é criança, depois joga até uns dez, 11 anos, depois ela não tem para onde ir. Dentro da formação do atleta existe um período que é muito importante que é dos 12 aos 18 anos. Ela pode até ir para um clubezinho, uma associação, mas aí ela perdeu a parte mais importante da formação do atleta.

TORCEDORES.COM: A Marta surgiu para o futebol mundial neste contexto?

HELENA PACHECO: Dentro dessas possibilidades, nós conseguimos fazer um time Sub-17. Foi aí que apareceu a Marta, assim como outras meninas. Pra você ter uma ideia, o time do Flamengo (que é basicamente da Marinha) ainda tem seis ou sete jogadores daquela formação que o Vasco fez de Sub-17, que é o mesmo ano da Marta. Se você tem uma formação, você gera o atleta. E eu não vejo mais isso. Talvez essa a maior dificuldade que o Brasil tem na área do futebol feminino.

TORCEDORES.COM: Pegando esse gancho da formação de atletas e da formação de novos talentos, nós tivemos recentemente o retorno da Cristiane e da Formiga para a seleção brasileira. Isso atrapalha o surgimento de novos valores? Estamos parados na esquina e paramos de revelar grandes atletas?

HELENA PACHECO: Estamos parados há muito tempo. Eu diria desde 2000, quando o Brasil fez uma grande Olimpíada. Fez também em 2004 e depois parou. Como você falou, a Cristiane foi uma grande atleta. A Formiga foi uma grande atleta. Mas nós estamos usando o verbo no passado. Elas até podem conviver com as mais novas e usá-las como exemplo. Mas se você não tem uma formação de novas meninas, um treinamento diário, uma aplicação para você formar novas meninas como atletas com fundamentos desde o início, você não vai ter uma jogadora de futebol. O futebol é um esporte de contato. A Marta entrou num clube que tinha tudo para oferecer a ela para ser uma grande jogadora. Ela teve tudo. Quando o Vasco acabou com as suas atividades amadoras em 2000, ela teve a coragem e a sorte de ser chamada para jogar na Suécia. Se não, ela ficaria no anonimato como muitas ficaram por aqui. A Caixa Econômica Federal oferece um patrocínio para que os times façam um campeonato nacional. Mas se você não pegar esse dinheiro e distribuir para oito times no máximo, fazendo o trabalho de base e incentivando os projetos para a base, nós não vamos sair do lugar. Não é possível que não se fale mais numa nova Marta, numa nova Sissi, numa nova Pretinha, numa nova Cristiane. Como assim não se faz? O Brasil é um celeiro de talentos. Você faz o que você quiser com um atleta brasileiro. E no futebol feminino não é diferente. Tanto é que nós tivemos grandes jogadoras. E por que não continuar tendo? Não é por falta de meninas. É por falta de vontade política. Eu brigo com isso há muito tempo.

TORCEDORES.COM: Você enxerga má vontade de clubes e patrocinadores com o futebol feminino?

HELENA PACHECO: Eu já pensei nisso, também, sabia? Mas se os clubes têm má vontade, é porque eles estão falidos. Então eles não querem gastar dinheiro. O futebol feminino tem que virar um "business" para que todos possam ganhar dinheiro. Primeiro, as meninas precisam virar jogadoras profissionais. Ela não tem passe, não tem dinheiro, não tem nada. Ninguém ganha dinheiro. Só perde. Segundo, se você quer fazer alguma coisa de bom no futebol feminino, é preciso pegar oito times bons, bem divididos com jogadoras de qualidade com camisas poderosas, de times conhecidos e coloca na mídia. Tenho certeza absoluta que vai dar certo. Eu vivi esse processo no vôlei. Se você bota um espetáculo dentro do futebol feminino, as coisas vão dar certo.

TORCEDORES.COM: Você concorda com as propostas de mudanças nas regras do futebol feminino? Você acha que é preciso mudar o tamanho do campo, o tamanho da trave, o peso da bola…

HELENA PACHECO: Não tem porque fazer uma coisa dessa. Eu vou dizer o que tem que ser feito e é a coisa mais fácil do mundo: é diminuir o tempo. O futebol masculino joga quarenta e cinco por quarenta e cinco. O futebol feminino tem que jogar trinta, trinta e cinco por trinta, trinta e cinco no máximo. Você vai ter menos cansaço, você vai ter uma condição física melhor, você vai tocar melhor a bola, você vai ter mais qualidade em tudo que acontecer dentro de campo. Todos os esportes coletivos mudam a bola, o tempo ou a rede. O vôlei muda a rede, o basquete muda a bola, o handebol muda a bola… O futebol não muda a nada. Não tem como você mudar o campo. É um transtorno. Não vai diminuir a trave. É outro transtorno. A bola é leve. Você diminui o tempo. Eu falo isso desde 1990. O "business" começa por aí. Organizando times com qualidade, dando treinamento de fundamento geral pra essa galera, treina por seis, sete meses e quando os times estiverem prontos você joga na televisão.

TORCEDORES.COM: E quem sabe até colocar como preliminar de grandes jogos do futebol masculino…

HELENA PACHECO: Joguei várias vezes no Maracanã e no Morumbi. Jogamos preliminar de Vasco x Fluminense, preliminar de Vasco x Flamengo… Joguei várias vezes porque eu tinha um dirigente que mandava na Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro. Mandava mesmo e a gente sabe. Ele chegava e falava, "vamos colocar sim o futebol feminino como preliminar", e a gente jogava! Ajudava muito porque a televisão vinha, o jornal mencionava e isso chamava público. O pessoal ia assistir. Se você fizer uma coisa nesse nível, começando por aí, a vontade política aparece, os interesses financeiros aparecem, todo mundo começa a ganhar dinheiro, todo mundo fica feliz e pronto: o futebol feminino se torna algo viável.

TORCEDORES.COM: Professora, nós vimos muitas críticas à seleção feminina comandada por Vadão nos Jogos Olímpicos por conta do grande número de ligações diretas para o ataque, enquanto tínhamos várias jogadoras que sabiam jogar com a bola no chão. Nós sabemos que a mulher é mais baixa, tem uma estrutura óssea e muscular menor do que os homens. Não seria melhor que a gente adotar um estilo de mais bola no chão, de mais passes curtos e de mais triangulações nos nossos times femininos aqui no Brasil? Como você vê essa questão tática no futebol feminino?

HELENA PACHECO: Eu sou totalmente contra você colocar uma pessoa do futebol masculino caindo de paraquedas no futebol feminino. Acho isso um absurdo. Você tem bons profissionais que podem dirigir as meninas com um conhecimento profundo daquilo que elas podem oferecer pra você num sistema tático. Comigo, dentro do Vasco, e depois com o Marcos Gaspar, que era assistente técnico do Vasco, virou treinador e depois comandou a Seleção Brasileira Sub-17 e Sub-19, fez um trabalho de base excelente, o negócio era bola no chão. Não tinha esse negócio de bola no ar. Até porque as jogadoras estrangeiras são mais altas que as nossas. Não existia isso. Então se o cara não tem muito tempo e adota isso, o que vale é o sistema de jogo dado pelo próprio técnico que está dirigindo a seleção. Eu sou totalmente contra isso. Eu não gosto disso. Cada macaco no seu galho. Ele não tem condições de aprender e conhecer uma jogadora em três, quatro meses. Ele tem que saber o que está vendo, ele tem que observar outros times, ele não condições. Ele não está errado em aceitar. Ele é profissional e aceita. Mas a CBF não tem que convocar. Ele tem que conhecer os times estrangeiros, ele tem que conhecer os times nacionais, ele tem que viajar pelo Brasil, ele tem que se inteirar do que está acontecendo. A CBF está errada ao fazer isso. O sistema tático é dado pelo técnico. Se o técnico gosta de jogo direto, vai ter jogo direto. Vemos isso constantemente no masculino. Sai um treinador, entra outro e o time muda. Ah, o cara é melhor de vestiário? Não. Você vê a mão do técnico e as mudanças táticas. Ele mexe no sistema da equipe. No futebol feminino é a mesma coisa. As meninas entendem perfeitamente isso. Elas fazem o que é mandado a elas. E se confiam no técnico, então as coisas serão feitas dessa forma.

TORCEDORES.COM: E qual é a sua opinião sobre o técnico Vadão, a Seleção Brasileira nos Jogos Rio 2016 e o nível técnico das nossas competições no futebol feminino?

HELENA PACHECO: O Vadão pegou uma seleção que já estava velha. A gente até foi andando, mas você há de convir que a Marta já estava cansada, a Formiga nem se fala, mas elas jogaram muito dentro do que é possível. Agora, se elas decidiram que iam obedecer ao sistema de ligação direta, não dá pra gente saber. Eu também sou contra isso. O nosso futebol é tocado no chão. A bola cruzada na área vem do fundo cruzada pra trás. E tem a marcação também. O Brasil marca muito mal. Não é um time que sabe marcar bem. E com jogadoras mais velhas, mais cansadas, fica mais difícil ainda. Eu não posso opinar direito porque eu não vi o treinamento dele. Então eu não sei se isso era dele ou se decidiram na hora. Eu vejo e até comento alguns jogos do Campeonato Brasileiro Feminino e da Copa do Brasil Feminina, que são horrorosos. Não vai ter espetáculo nunca. Tem muito chutão. E um time que tem duas ou três meninas melhores se sobressai e o resto não anda no segundo tempo por que não tem preparo físico nenhum, porque não tem preparo técnico nenhum. Fica um bando correndo pro lado direito, um bando correndo pro lado esquerdo, você vê claramente que elas não tem condições de jogar. Mas elas vêm jogar porque estão ali, a Caixa Econômica distribui dinheiro pra cinquenta times no Brasil. Isso não existe. Se você quer fazer o melhor, você precisa de pessoas que queiram fazer o melhor. Quando aparece algum interesse, aparece pra você pegar aquele dinheiro ali e utilizar aquele dinheiro e pronto. Não é utilizado para a melhora do futebol feminino.

TORCEDORES.COM: É um imediatismo muito grande…

HELENA PACHECO: É pra ganhar aquele dinheirinho naquele momento. Não é pra você criar raízes. Você tem que criar raízes. Na década de 1990 tinha times como o São Paulo, como a Portuguesa, como o Vasco, o Botafogo, como o Flamengo, como o Cruzeiro, como o Internacional e hoje você não tem. A CONMEBOL exige que cada time que dispute a Libertadores e a Copa Sul-Americana tenha time de futebol feminino. Mas ela colocou nas entrelinhas lá que esse time não precisa ser necessariamente para o ano inteiro. Você pega uma associação, veste de Botafogo ou de Vasco e vai jogar. Isso é brincadeira. Onde que o futebol feminino é ajudado com isso? É prostituído. É uma prostituição isso. Você fala, "vem cá, vamos participar da Libertadores, toma cinco mil aí e pronto". É complicado.

TORCEDORES.COM: Os Estados Unidos fazem um belo trabalho na promoção e divulgação do futebol feminino. E o site da federação norte-americana contém todos os dados das partidas e das jogadoras e a seleção deles jogam um futebol bastante atraente, com triangulações, bola no chão e tudo aquilo que a gente defende. As norte-americanas devem servir de modelo para o resto do mundo?

HELENA PACHECO: Eu tive uma indicação para trabalhar na liga profissional americana em 1999, quando eles começaram a fazer a primeira liga de futebol feminino. Eles pegaram as melhores jogadoras do mundo e levaram para fazer uma seleção internacional e eu pude conhecer a seleção americana. E realmente a melhor seleção americana de todos os tempos foi aquela de Mia Hamm e outras grandes atletas. Era um time excepcional porque, além de ter um esquema tático fantástico, elas eram muito boas tecnicamente e tinham muita qualidade. Depois disso, eu voltei aos Estados Unidos para fazer clínicas de futebol feminino em locais onde existem vinte campos de futebol para torneios com meninas até quinze anos. E lá eram escolhidas as meninas para fazer parte de equipe de high school, de faculdades ou até um draft de uma equipe profissional. Claro que a situação financeira é muito diferente da nossa. Mas elas não se comparam às nossas em qualidade técnica e individual. As nossas jogadoras são muito melhores. Tanto que eu era chamada pra lá para ver se eu descobria uma Pretinha ou uma Marta. Eles queriam que eu visse essas meninas enquanto novas para eles poderem avaliar as jogadoras mais rápido para poderem botá-las em condições. O que elas têm é muito fundamento desde os cinco, seis anos de idade, nas escolas, dentro dos torneios regionais e de base.

TORCEDORES.COM: Então quais são as diferenças entre as jogadoras norte-americanas e as brasileiras?

HELENA PACHECO: Elas têm uma formação de fundamento técnica e tática quadradinha, bonitinha e cumprem. Aí aparece uma Mia Hamm ou uma outra jogadora de mais qualidade e evidentemente vai se sobressair. Mas os Estados Unidos fazem jogadoras aos cinco anos de idade. Se eu for numa comunidade daqui, nos torneios de favela, eu vou achar um monte. Lá você pega a menina jogando bola na rua, ela não tem preconceito, a família não é contra… Tem uma série de outras coisas que impede uma família de Zona Sul de fazer a mesma coisa. Cansei de buscar meninas na comunidade pra poder trazer pra jogar bola. Mas eu preciso dar alimentação pra ela, eu preciso dar um dentista pra ver como estão os focos dentários, eu preciso dar um médico pra ver como ela está, eu preciso dar um dinheirinho pra ela poder ao menos ir e vir, pra dar condição física pra ela treinar. Mas como eu vou dar uma condição física se a menina não come? Como eu faço isso? Eu fiz isso com meu Sub-13 e com meu Sub-15. E virei pro Eurico e disse que precisava fazer um time de Sub-13 e Sub-15. Aí ele: "Do que você precisa?" E eu: "Comida. Preciso de comida e um local onde elas possam dormir". Expliquei tudo e ele respondeu: "Tudo bem. Pode fazer".

TORCEDORES.COM: Mas isso é o básico, não é?

HELENA PACHECO: Como você vai formar um atleta se ele não come? Ele não come! Ele precisa comer e dormir bem. Pronto. Daí o profissional vai dar a carga que ele precisa de preparação física e técnica e pronto. E se você não come, você não pensa. Você precisa ir pra escola, tem que saber pensar para eu poder explicar o que é uma diagonal e a menina entender o que é uma diagonal. Às vezes não sabe nem o que é uma reta! Essas coisas básicas que a gente está falando vêm de um país que sofre com a situação básica. Então se eu quero fazer o melhor para incentivar isso, volto ao meu amigo "business". Pegar uns três ou quatro patrocinadores, explicar o que a gente quer fazer e eles comprarem a ideia. Comprando a ideia, a gente anda. Diminui o tempo de jogo e a gente vai andar. Depois até pode voltar para os quarenta e cinco minutos que a FIFA não admite essa ideia, mas ainda vai admitir… Outra coisa importante: já que não querem mexer no tempo, que se mexam nas substituições. Em vez de dar três, dá cinco pro feminino pra poder descansar a galera. Você não quer espetáculo? Você não quer dinheiro? É isso. Você tem que adequar as coisas que são necessárias.

TORCEDORES.COM: Professora, a gente vive numa sociedade machista. Não há como se negar isso. E certos conceitos ainda estão enraizados. Tanto que as mulheres foram proibidas de praticar determinados esportes por conta desses preconceitos. E a gente ouve muito que futebol não é lugar para a mulher. Isso ainda é um problema?

HELENA PACHECO: Eu não gosto muito de levar isso como se fosse um problema maior. Eu hoje não acho que seja por aí. O futebol teve alguns momentos em que ele podia deslanchar, mas por conta de aproveitadores que estavam na direção dos clubes e federações nesse momento ele não andou. O preconceito evidentemente sempre vai existir. Mas quando você está vendo na televisão uma menina lutando boxe ou MMA que são coisas muito mais violentas e as pessoas veem e pagam para ver isso, o nosso país que é apaixonado por futebol, o preconceito não pode ser levado em consideração como único problema. Tanto é que o Maracanã gritou o nome da Marta várias vezes nos Jogos Olímpicos e eu aqui nas ruas vi um garotinho fazer um gol e gritar "gol da Marta". Ele cedeu à qualidade, à beleza do esporte praticado por ela. Eu gosto de pensar que a gente pode melhorar isso sem pensar no preconceito que vai existir sempre. Como também sempre vai existir de um menino querer fazer um balé. O ser humano é assim. Ele determina que o menino não pode usar rosa. Não pode usar rosa por causa de quê? São coisas que são carregadas de anos,a nos e anos, mas podem ser quebradas se você demonstra qualidade, se você demonstra que pode fazer um espetáculo legal e que será apreciado e respeitado por isso.



Fonte: Torcedores.com